sexta-feira, 9 de maio de 2008

A LENDA DE ABRANTES

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ABRANTES é uma antiquíssima cidade. Segundo alguns autores, terá sido fundada pelos Túrdulos 990 anos antes de Cristo, segundo outros foi fundada por galo-celtas em 308 a. C. Foi senhoreada por Romanos, Visigodos, Árabes e, por fim, em 8 de Dezembro de 1148, conquistou-a D. Afonso Henriques. Diz-se que os Romanos lhe chamavam Tubucci, os Vísigodos Aurantes e os Árabes Líbia. Segundo a lenda, o nome de Abrantes data, mais ou menos, da época da conquista da fortaleza por D. Afonso Henriques, estando ligado a acontecimentos imediatamente posteriores.




Consta que era alcaide do castelo um velho mouro chamado Abraham Zaid. Abraham tinha uma filha a que chamara Zara e um filho bastardo, de uma cativa cristã, a que pusera o nome de Samuel. Ninguém sabia, porém, que Samuel era filho do velho alcaide, nem o próprio rapaz. Assim, viviam os dois jovens apaixonados e o velho sentindo crescer em si, dia a dia, uma angústia terrível, antevendo a hora em que seria obrigado a revelar o seu segredo.




Um dia, diz a História, os cristãos foram pôr cerco ao castelo. A hoste era comandada pelo aguerrido Afonso Henriques, que trazia consigo vários cavaleiros e monges. Do Mosteiro do Lorvão trouxera o Rei um velho e sábio monge beneditino para o aconselhar os assuntos espirituais. De algures, de um local qualquer do reino, trouxera um cavaleiro cheio de ideais e de força guerreira, chamado Machado.




Finda a batalha e conquistado o castelo, Samuel foi aprisionado por Machado. Na confusão do saque da debandada moura, o cavaleiro, que acabara de desarmar Samuel, viu um peão perseguindo Zara com intuitos evidentes de violação, e, entregando o prisioneiro a dois vigias, correu em auxilio da moura. Com um forte empurrão derrubou o soldado, que estava ébrio, e amparando Zara foi entregá-la à custódia do velho beneditino, até que se acalmassem os ânimos exaltados pelo sangue, pelo saque e pelo vinho.




Quando o cavaleiro Machado retomou o seu posto, ia como que alheado. Ficara fascinado pela beleza da moura, estranhamente parecida com uma imagem de Nossa Senhora dos Aflitos que sua mãe lhe dera ao morrer e que ele, devotamente, trazia sempre consigo. Por outro lado, impressionara-o a repentina recordação de um sonho que vinha tendo frequentemente e no qual, ao escalar os muros de um castelo, se via salvando uma donzela com que se casaria. Tudo isto contribuía para o alhearnento do jovem cavaleiro, que, se não fossem as suas obrigações de guerreiro, decerto se teria quedado em enternecida contemplação da bela Zara.




Entretanto, D. Afonso Henriques, querendo remunerar os serviços prestados naquela batalha pelo seu bastardo D. Pedro Afonso, deu-lhe o senhorio do castelo e nomeou-o seu alcaide-mor. Pedro Afonso, porém, desejava partir com o pai para Torres Novas e, por isso, decidiu delegar a alcaidaria no cavaleiro Machado.




O Rei, antes de partir, mandou que o monge ficasse no castelo como guardião das almas, ordenou-lhe que entregasse a prisioneira a Abraham e tomou todas as medidas necessárias à segurança da vila.

Assim que a hoste se desvaneceu ao longe, na poeira, o cavaleiro Machado, feliz por ficar como alcaide do castelo, apaixonado por Zara, preparou-se para conquistar o seu coração utilizando os meios permitidos pelo código de honra da cavalaria, ou seja, os modos corteses e suaves. Mas Zara, que adorava Samuel, sentia uma espécie de rejeição cada vez que o cavaleiro se aproximava de si. E, para não fazer qualquer gesto mais brusco que comprometesse a boa paz em que viviam, pedia conselhos ao pai e ao velho monge. O frade, como confessor do cavaleiro, bem sabia o amor que ele tinha pela donzela, e, como bom observador, compreendia que nas evasivas de Abraham existia qualquer coisa de estranho. Por isto, procurava conciliar toda a gente e assegurava a Zara a honradez e nobreza de sentimentos do jovem alcaide.




Samuel, porém, não conseguia viver em paz. Os ciúmes irrompiam nele à mínima alusão, ao mínimo gesto, sem que conseguisse controlar-se. E, na sua insegurança, tão depressa acatava as palavras conciliatórias de Abraham e do monge, como ficava possuído pelo demónio da Loucura, que o obrigava a cometer insânias.

Zara acreditava que Samuel estava compenetrado do seu amor e da sua fidelidade e pensava, por isso, que as acções destrambelhadas do rapaz provinham da mudança de situação para vencido de guerra. Assim, certa tarde em que tentava reconciliá-lo com o alcaide, perguntou ao pai como deveria proceder se o cavaleiro viesse procurá-la e ele não estivesse em casa: deveria manter a porta fechada como se não estivesse ninguém, ou recebê-lo-ia?




Abraham, julgando ver nesta pergunta um novo intuito de ofensa ao alcaide do castelo, para evitar mais problemas, respondeu:
-Nada temo nem receio da tua virtude, minha filha. E confio também na honradez do alcaide. Abre antes a porta!

Samuel, porém, ao ouvir estas palavras perdeu o domínio de si e correu para a rua, gritando como louco:
- Abre antes! Abre antes!

A vizinhança acorreu, uns aos postigos, outros às vielas, a saber o que aquilo era, e Samuel, enlouquecido de ciúmes, contava a história à sua maneira, deixando agravados o alcaide, Zara, Abraham e o próprio monge.




Conta a lenda, ainda, que Samuel acabou por cair de cansaço e de febre. Uma vez bom de saúde, Abraham juntou os e contou-lhes a verdade sobre o nascimento do rapaz. Assim ficaram a saber que eram irmãos e que a mãe de Samuel fora uma bela cativa cristã que certo dia chegara a Tubuccí chorando um noivo que deixara na sua terra, chamado João Gonçalves.

Rolaram lágrimas silenciosas pelas faces envelhecidas do frade beneditino. Ele fora esse João Gonçalves que, vendo a noiva desaparecer, crendo-a perdida para sempre, entrara para o Mosteiro do Lorvão. Pediu o monge a Abraham dados sobre essa cativa, para se certificar de que a mãe de Samuel fora a sua amada noiva. E vendo que os dados coincidiam, tomou o rapaz a seu cargo, conseguindo -lo ao serviço do Rei de Portugal.




Machado e Zara acabaram por casar, depois de os mouros se terem feito cristãos, e dentro das muralhas da velha Tubuccí reinou, finalmente, a harmonia.

E, segundo reza a lenda, em memória do febril acesso de loucura de Samuel, Tubucci passou a ser chamada Abrantes.




Texto e Fotos da Net

António Inglês

14 comentários:

amigona avó e a neta princesa disse...

Pois sim senhora, gostei de ler! Já conhecia o "abre antes" mas com todos estes pormenores, não!
Esta zona tem a ver comigo pois foi por aí numa aldeia perdida e atrás do sol-posto que cresci durante 5 anos! (dos 2 aos 7)...beijos, amigão...

Sophiamar disse...

Querido amigo Tó, Mano do Coração

Mais uma lenda para a colecção desta tua amiga. És o responsável por um espólio tradicional que vou arrecadando e que muito jeito me dá. Eu sei que poderia encontrá-las mas aqui o trabalhinho está todo feito. Dá-te a ti muito gosto fazê-lo e a mim muito gosto em recolhê-lo. Muito obrigada, amigo.
De amores entre mouros e cristãos vais falando e simultaneamante do povoamento e alargamento deste território formado em 1143 e cujo crescimento se deu por terminado em 1249 e definidas as fronteiras em 1297.
É com muito gosto que aqui venho e aqui continuarei a vir enquanto mo permitires. Se assim não puder ser , outros meios temos ao nosso alcance para mantermos uma amizade sadia, em boa hora aqui nascida.

Deixo-te mil beijinhos, como sempre,e um grande abraço. Obrigada por tudo, amigo. Há ombros e momentos que nunca esquecerei.

Isabel
Bem hajas!

São disse...

Abrantes é uma zona que conheço relativamente bem, porque fui casada treze anos com um senhor de perto.
Feliz final de semana, caríssimo.

António Inglês disse...

Amigona

Pelos vistos esta zona diz muito a muita gente. Eu só me liguei mais à região desde que a minha filha casou com um alentejano da Comenda, perto do Gavião e por isso sempre que lá ia visitá-la passava em Abrantes.
Agora eles mudaram-se para Lagoa, para o Algarve e já não vou para aqueles lados há uns tempos. No entanto fiquei fã da região, onde paradoxalmente gostava de ir pescar para algumas barragens da zona.
Um beijinho
António

António Inglês disse...

Isabel

Se um dia deixares de poder vir aqui é porque tive de me ir embora e isso gostava que não acontecesse. Até porque ainda me faltam aí umas... quinhentas e tal Lendas de Portugal...
Nem eu fazia ideia do número de lendas que temos. Não há terra ou terreola que não tenha a sua, e muitas há que até têm duas ou três diferentes.
Beijinhos minha amiga.
Estou e estarei sempre ao teu dispor.
António

António Inglês disse...

São

Também o meu genro mais recente é de perto, da Comenda - Gavião.
Fiquei a gostar muito da zona, onde se come muito bem...
Beijinhos
António

Filoxera disse...

Conheço a zona, que passei bastantes semanas completas a calcorrear por rzaões profissionais; não sabia a história.
Nos primeiros posts que li neste blogue, imaginei-o médico; eram sobre cancro da mama e Alzheimer, que afligiram a minha mãe um e o meu pai o outro.
Ultimamente, os textos parecem da autoria de um historiador.
Parabéns!

Joaninha disse...

Que bonita lenda.

Bom fim de semana Antonio.

Bj

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá querido amigo António, deseijo-te um bom fim de semana... Beijinhos de carinho,
Fernandinha

M.A. disse...

Muito interessante a sua ideia de contar as lendas relacionadas com terras de Portugal.
Já agora, a propósito da sua visita ao post sobre Catulo da Paixão Cearense, no blog Simecq Cultura, sugiro que procure ler o seu livro de poemas MEU SERTÃO. Se pesquisar na Net, pelo nome do poeta, vai encontrar uma amostra da sua poesia com o característico
vocabulário sertanejo.
Bom Domingo!. M.A.
sertanejo

António Inglês disse...

Filoxera

Minha querida amiga, pois nem médico nem professor nem nada que se pareça com tal.
Apenas gosto de vasculhar pelas coisas importantes da vida e nada mais.
Um beijinhos
António

António Inglês disse...

Beijinhos Joaninha
António

António Inglês disse...

Fernadinha

Olá minha querida amiga. Também te envio mil beijinhos
António

António Inglês disse...

m.a,

Obrigado pela sua visita e creia que sempre que possa continuarei a visitar o vosso espaço.
Obrigado pela informação.
António