sábado, 12 de abril de 2008

S. JOÃO DO PORTO ARDEU HÁ 100 ANOS

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Como um «vulcão em actividade», na descrição da imprensa da época, o Teatro de S. João ardeu completamente na noite de 11 para 12 de Abril de 1908. Foi a quarta sala de espectáculos do género a ser consumida pelas chamas na cidade do Porto. Renasceu das cinzas.



Foi por volta da meia-noite de 11 para 12 de Abril de 1908 que os bombeiros portuenses foram chamados a atacar um incêndio que por essa hora já lavrava no palco do Teatro do São João, no Porto. Quando os primeiros chegaram ao edifício na Praça da Batalha, tiveram logo a percepção de que dificilmente poderiam salvar o teatro lírico que era a jóia da coroa da cidade e que tinha sido inaugurado 110 anos antes, em resposta à abertura em 1793, do Teatro de S. Carlos, em Lisboa.



Passadas algumas horas em que «o vasto edifício, vomitando chamas, dava a ideia d’um vulcão em actividade» - como reportou o Primeiro de Janeiro na sua edição do dia 12, um domingo-, o S. João ficava reduzido a quatro «derruídas paredes», para desespero das pessoas que entretanto se acotovelavam «num murmúrio de pesar».

Restava, como consolação para muitos portuenses, o facto de o incêndio não ter provocado vítimas, como duas décadas atrás tinha sucedido na tragédia do Teatro Baquet, bem perto dali, onde pereceram mais de uma centena de pessoas – também sem vítimas humanas, dois outros teatros tinham sido destruídos pelas chamas, nos trinta anos anteriores: o Trindade, na Cancela Velha (onde agora é o Palácio dos Correios), e o Variedades (do célebre Actor Taborda), nas Carmelitas.



O Teatro de S. João fora inaugurado a 13 de Maio de 1798, dia do 31º aniversário do príncipe D. João (futuro D. João VI), o que explica a designação inicial de Teatro do Príncipe – seria depois Theatro de S. João e finalmente, apenas S. João. A sua construção foi iniciativa de D. Francisco de Almada e Mendonça, co-regedor e obreiro da urbanização da baixa do Porto no final do século XVIII, que conseguiu mobilizar os notáveis da cidade para uma subscrição de acções para esse fim.



O autor do projecto foi o arquitecto italiano Vicente Mazzoneschi (que tinha sido cenógrafo de S. Carlos). Mas, por razões económicas, e também por algumas preocupações com o risco de incêndios (que, afinal, não se mostraram eficazes), o edifício construído ficou aquém do projecto original de Mazzoneschi, principalmente na sua face exterior, cuja sobriedade, e até pobreza, contrastava com o interior, que ostentava a mesma riqueza barroca do seu congénere de Lisboa.

O edifício na Batalha foi construído para substituir o seu antecessor, o Teatro do Corpo da Guarda, instalado no Palácio do Conde de Miranda e inaugurado a 15 de Maio de 1762, tornando-se então no primeiro palco lírico no país.



No mesmo lugar onde ardeu o S. João foi depois construído um novo teatro, num projecto do arquitecto Marques da Silva, que foi inaugurado a 7 de Março de 1920. É o actual Teatro Nacional S. João, onde o Porto continua a rever-se na sua marcante história cénico-lírica.

Por Sérgio C. Andrade no Sexta de 11 de Abril de 2008.



O Teatro de São João ocupa um quarteirão da zona alta do centro histórico. É um edifício clássico, com ornatos alegóricos à dor, bondade, ódio e amor e está classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Dec. nº 28/82, DR 47 de 26 Fevereiro 1982.




O edifício do Teatro Nacional S. João, no Porto, exibe nas paredes laterais oito máscaras em relevo, quatro em cada lado, pormenores que geralmente passam despercebidos pela tendência de olhar para o todo.




Localização

Praça da Batalha - Porto
Distrito: Porto
Concelho: Porto
Freguesia: Santo Ildefonso



Fontes: Textos do Sexta e da Net / Fotos da Net



António Inglês

14 comentários:

Sophiamar disse...

Se tu soubesses António,Amigo Querido, as recordações que este teatro me traz? As melhores!Quantas vezes fui, durante as férias escolares, visitar os meus tios e, por terem conhecimento do meu gosto pelo teatro, proporcionavam-me sempre uma noite de prazer nessa sala que é uma das mais bonitas do país.Essa praça, da Batalha chamada, é-me cada vez mais familiar por ser aí que fico hospedada sempre que vou ao Porto desde que o meu tio morreu. É lindíssima! Em frente fica a igreja de Santo Ildefonso e entre uma e outro está a Rua de Santa Catarina onde não passo sem tomar café e depois ir às compras.

Mil beijinhosssssssss

Bom fim de semana!

Sophiamar disse...

Meu Querido Amigo!

Reli o post e sou capaz de o reler várias vezes mais.Estou cheia de saudades dessa cidade que tanto amo e não fora o nascimento da neta teria aí passado na Páscoa em direcção à Galiza.Aproveito para rever o Teatro onde tantas peças já vi representadas e ao qual tão bons momentos da minha vida andam ligados.
Mais um excelente post, tanto ao teu gosto e daqueles que por este blogue passam.
Mil beijinhos embrulhados na amizade que aqui vamos consolidando.

Menina do Rio disse...

Incêndios já destruiram tantas obras.
Ficam as memórias

Um beijo

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá querido António, grande pesquisa... Belíssimo texto... 20 Valores para nos trazeres histórias de Portugal... que muita gente desconhecia, assim como eu!
Bom domingo,
Beijinhos de carinho,
Fernandinha

Um Momento disse...

Fantástica esta "biografia" relatada do Teatro de S. João.
Eu própria ainda não havia admirado os "bustos" e agora o fiz com um prazer enorme, e o que "arranjas-te " foi que um dia destes irei fotografa-las para recordação:)
Grata por este Momento meu Amigo
Desejo um excelente Domingo a ti e familia

PS: espero que estejas recuperado:))

(*)

Um Momento disse...

( Este post fez-me lembrar o chiado... nada tem a ver eu sei... mas veio-me á lembrança o fogo que consumiu toda aquela beleza histórica...)

Beijo grande!

(*)

António Inglês disse...

Isabel

O Porto, independentemente de alguns andarem teimosamente a querer separá-lo do Sul, está intimamente ligado à grande maioria dos portugueses. Queiramos ou não, todos nós temos recordações ou familiares por lá.
Há quem diga, e eu já ouvi alguns dizerem isso, que a cidade do Porto, é triste, é cinzenta é escura...
Pois é que de entre nós muitos existem que de sensibilidade só têm mesmo quando a sopa está muito quente... e pouco mais...
O Porto, tal como Lisboa tem de se viver e sentir. Só conhecendo mesmo sabemos a beleza que ele encerra.
Faz-me lembrar aquela história da beleza exterior e interior.
Talvez não seja muito feliz esta comparação...
Eu pelo contrário, sinto o Porto de forma especial, como sinto Lisboa, no fundo a minha cidade.
Vivi um ano na cidade da Maia e passava a vida no Porto.
Sou um apaixonado pelo Norte como sabes e o curiosos é que não perco uma só vez a oportunidade de visitar o Porto. É lá que eu e minha mulher vamos namorar de forma mais romântica, porque esta cidade isso nos oferece e convida.
Este Teatro, graças a Deus foi recuperado, e hoje faz parte da história das gentes da cidade e do país mesmo.
Pena que alguns outros se vão perdendo irremediavelmente sem que ninguém faça nada para os preservar, e quando fazem é para os deitar abaixo e permitir novas construções que vão descaracterizando as cidades e a história de um povo.
Acho que não podemos ficar eternamente agarrados ao passado, mas não temos de nos envergonhar dele. O passado pode continuar entre nós e podemos encontrar formas de o interligar com o presente e com o futuro. Só é preciso um pouco de inteligência e pensar. É fácil optar sempre pela fórmula mais simples e mais barata para resolver estas questões. O difícil é realmente saber conciliar tudo isto e fazer bem feito.
Mil beijinhos
António

António Inglês disse...

Isabel

Na resposta ao comentário anterior que aqui deixas-te, disse-te quase tudo, mas não falei na Batalha e na Rua de Santa Catarina, o centro da moda por excelência da cidade Invicta.
Durante uns anos estive ligado à moda e nessa rua tive muitos clientes que marcam comercialmente também a cidade. Sem querer menosprezar ninguém, lembro-me dos "PINTOS", do "MARQUES SOARES" e tantos outros a quem apresentava as minha colecções de malhas exteriores de senhora. Foram tempos extraordinários que já lá vão.
Durante esses anos todos fiquei numa Residencial no cimo da Rua e que tinha o nome precisamente de Residencial de Santa Catarina, um antigo palacete construído por um português ou brasileiro de que já não me recordo a história.
Infelizmente a memória já me vai pregando estas partidas, mas um dia destes tentarei reavivá-la.
Um grande beijinho
António

António Inglês disse...

Fernandinha

Com vinte valores estarei aprovado, mas estes vinte valores dependem muito de quem mos atribui, e os seus olhos e a sua sensibilidade é que assim ditaram.
Eu vou reagindo a impulsos exteriores e vou deixando por aqui algumas mensagens que a nossa memória guardará se for caso disso.
Obrigado pelas suas palavras.
Um grande beijinho e um bom domingo
António

António Inglês disse...

Menina do Rio

Pois, é verdade o que diz, e aqui por Portugal, os incêndios têm deixado as suas marcas.
Bem sei que algumas obras são recuperadas, normalmente de forma diferente e que altera a anterior, mas muitas são votadas ao abandono e nem precisam de arder, basta estarem velhas...
Valha-nos mesmo a memória...
Um bom domingo
António

António Inglês disse...

Um momento

Eu por acaso já tinha reparado nos bustos do exterior do Teatro, mas tão em pormenor nunca.
Vou aprendendo tanto quando busco na Net os assuntos e as matérias que me interessam.
Um grande beijinho e um óptimo domingo.
António

António Inglês disse...

Um momento

É normal que nos venha à memória os incêndios que de uma forma ou de outra marcaram a vida de todos nós e das cidades onde aconteceram.
O incêndio do Chiado foi um drama que acabou por trazer um novo rosto ao local, se bem que pense que aquelas obras de reconstrução não estarão bem de todo.
Farto-me de pensar, que a zona foi toda recuperada e requalificada por causa de um incêndio. Pergunto, se por uma infeliz ocorrência um novo incêndio ali deflagrar como irão os Auto.tanques dos Bombeiros subir por exemplo a Rua do Carmo?
Está bonito? Está pois com certeza, mas com aqueles bancos no meio da rua como passarão os Bombeiros?
Muita confusão para a minha cabeça...
Um beijinho
António

Brancamar disse...

António,
Ainda não tinha comentado este texto do Teatro S. João, porque logo vieram o do Mercado do Bolhão e o do Porto em geral e fui passando por aqueles mas não me esqueci deste. Hoje mesmo estive no Teatro S. João a comprar bilhetes para ir ver dia 27 a Eunice Munoz e o Diogo Infante na pela "A Dúvida". Tenho ido muito lá ultimamente pois como sabes a minha filha estuda Teatro e vou passando por aqui e por todos os outros Teatros do Porto. Houve no entanto uma época antes do 25 de Abril e ainda depoiis durante alguns anos em que estes teatros estiveram subaproveitados e até passavam cinema. Lembro-me de com os meus 18/19 anos ver os dez mandamentos no Teatro S. João onde eu e mais uns poucos de primos ocupamos um camarote, foi depois também um boom de cinema no pós 25 de Abril, em que muita coisa deixou de ser proibida e até o Coliseu enchia com público para cinema. Aliás mesmo antes, lembro-me que vi a Música no Coração com uns 12 anos no Coliseu do Porto. Hoje isso é impensável. O cinema teve uma época de crise quando suegiram os vídeo-clubes e os leitores de vídeo, agora estão outra vez em alta, mas nas salas de cinema dos centros comerciais. Algumas salas de cinema da baixa tiveram que fechar, mas estas grandes salas ainda bem que ficaram para os grandes espectáculos. Ainda não falei aqui do Rivoli grande sala de referência, que também chegou a passar cinema. Hoje felizmente há muito teatro no Porto e grandes espectáculos de música. Tivemos um espectáculo genial no último fim de semana com a pianista Maria João Pires, na Casa da Musica.Toda esta cultura proliferou e reactivou-se quando o Porto foi Capital Europeia da Cultura em 2001e houve uma mulher que esteve à frente do Pelouro da Cultura e foi muito importante nesse planeamento, a Drª Manuela de Melo. O Teatro S. João não é Teatro Nacional há muitos anos, mas desde que é que tem servido muito melhor teatro em cojunto com o Teatro Carlos Alberto que faz parte da mesma Direcção.
Gostei de te ouvir falar dos teus clientes da Rua de Stª Catarina. Era nos PINTOS que o meu marido comprava a sua roupa, já não existem, o Marques Soares sim existe e embora tenha uma loja em Stª Catarina e outra na Boavista é nos Clérigos (Rua das Carmelitas) que tem a sua sede e uma série de lojas, foi um armazém que foi aumentando e hoje é dono de um grande quarteirão e tem mais lojas noutras cidades como Braga, Aveiro, Beja,Vila Real e Santarém. É assim uma espécie de Harrods cá do Porto, até electodomésticos e Restaurante, passando pela perfumaria, oculista e sei lá que mais...
E por hoje chega de conversa.
Vou descansar.
Fica bem
Beijinhos
Branca

Brancamar disse...

Mais uma vez as gralhas no texto e trocas de letras proliferaram aqui atràs. Tenho que começar a dormir mais cedinho. Estou a ficar velha e senil, já nem vejo bem.
Fica só a nota porque nem vale a pena emendar, creio que apesar de tudo se conseguiu perceber, o entusiasmo e velocidade a escrever fez com que por vezes o pensamento fosse mais rápido que a escrita, por exemplo quando quis dizer que até electrodomésticos e restaurante o Marques Soares tem, engoli o "tem".
Bem, aproveito para te desejar já uma boa noite pois tenho que fazer um trabalho e se calhar já não vou poder ler os posts de hoje.
Beijinhos muito amigos,da mana Branca