segunda-feira, 17 de março de 2008

AINDA RUANDA

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Prisão perpétua para padre católico por genocídio em Ruanda



ARUSHA, Tanzânia (AFP) — O abade Atahane Seromba, primeiro padre católico julgado pelo Tribunal Penal Internacional para Ruanda (TPIR), foi condenado nesta quarta-feira à prisão perpétua por seu papel no genocídio cometido nesse país africano em 1994.

O abade, que era vigário na paróquia de Nyange (oeste) durante o genocídio de 1994, foi condenado por crime contra a Humanidade, apesar de se declarar inocente.

A condenação, confirmada na corte de apelação por genocídio e extermínio, amplia uma primeira sentença de 15 anos de reclusão, de Dezembro de 2006.

"A corte anula por unanimidade a sentença de 15 anos e impõe por maioria a pena de prisão perpétua", declarou o juiz Mohammed Shahabuddeen.

A decisão em primeira instância havia determinado que Seromba, da etnia hutu, teve um papel de "ajuda e incentivo" nas matanças em Ruanda.



Mas os magistrados determinaram agora que seu papel foi maior, por ter dado permissão às autoridades locais para que destruíssem sua igreja em Nyange (oeste). O desabamento do templo provocou, em 16 de Abril de 1994, a morte de cerca de 1.500 tutsis que haviam se refugiado em seu interior.

"Seromba sabia que aproximadamente 1.500 refugiados se encontravam dentro da Igreja", indicou a câmara de apelações.

O genocídio ruandês, segundo a ONU, custou a vida de 800.000 pessoas entre Abril e Julho de 1994, entre a minoria tutsi e os hutus moderados.

A câmara de apelações confirmou outra conclusão do primeiro veredicto, segundo a qual o abade Seromba aconselhou ao condutor do tractor que atacasse o templo por seu lado mais frágil.

É a terceira vez na história do TPIR que a câmara de apelações prolonga uma pena pronunciada em primeira instância.



Depois do genocídio, o religioso se refugiou no ex-Zaire (actual República Democrática do Congo), e depois no Quénia, antes de ser recebido na Itália, na diocese de Florença, que permitiu que exercesse como padre numa localidade de Toscana.

Depois de pressões internacionais e de uma ordem de prisão do TPIR em 2001, que a Itália se negou a executar, o sacerdote se apresentou ante o TPIR em Fevereiro de 2002, "para que a verdade se manifeste", segundo declarou.

Outros dois padres ruandeses católicos, Emmanuel Rukundo e Hormisdas Nsengimana, também são processados ante o TPIR.

Um quarto padre ruandês indiciado, Wenceslas Muyeshyaka, poderá ser julgado na França, pois o TPIR se declarou incompetente em benefício da justiça francesa.

O papel da Igreja católica no genocídio ruandês continua sendo um tema polémico.



Durante as perseguições contra os tutsis de 1959 e de 1962 em Ruanda, os tutsis que se refugiaram nas igrejas conseguiram se salvar.

Três décadas depois, milhares de tutsis se esconderam nas igrejas para tentar escapar de seus verdugos, mas morreram no local, geralmente queimados ou arrasados pelos tractores.

Seromba, que fora o primeiro padre acusado do crime de genocídio, acabou por ser condenado pelo mais gravoso dos crimes previstos pela lei internacional, e ainda por crimes contra a humanidade. A condenação ameaça relançar a polémica sobre o papel assumido pelas igrejas presentes no país, em especial a católica, no genocídio ruandês ao não garantirem protecção às populações que procuraram refúgio nos templos.




Os “bulldozers” avançaram sobre o templo no dia 16 de Abril, esmagando os ocupantes sob os destroços e, segundo a acusação, o pároco terá dado instruções às milícias hutus para abaterem os possíveis sobreviventes. O colectivo deu ainda como provado que o pároco mandou o condutor de um “bulldozer” para atacar a igreja pela vertente que seria mais frágil.

Seromba acompanhou os milhares de hutus que nos meses seguintes procuraram refúgio em países vizinhos, tendo depois conseguido asilo em Itália, tendo chegado a mesmo a exercer numa paróquia da Toscânia. Alvo de um mandado de captura internacional, que Itália executar, o pároco viria a entregar-se ao TPI-R em 2002, mas alegou sempre inocência.

Texto AFP / Jornal 24 Horas / O Publico

Fotos da Net

"Não é de ontem nem de hoje que a mistura das religiões com o poder sempre se mostraram explosivas, e quem pagou foram sempre os inocentes".

António Inglês

6 comentários:

Sophiamar disse...

Uma notícia terrível que não li em pormenor por estar de saída mas que , a ser verdade, mostra a conivência do poder espiritual com o poder temporal a que não podemos ficar indiferentes. A minha repulsa não pode ser maior. E por aqui me fico porque sou católica e quero conhecer bem esta questão.

Beijinhosssss Mil e tantos

António Inglês disse...

Isabel

Ao longo dos anos, sempre as religiões estiveram ligadas ao poder e a muitos massacres, sempre em prejuízo do povo.
Este caso vem pôr à evidência como esse mistura é explosiva e cega.
É lamentável, mas eu não lhe daria só a prisão perpétua... Não iria ter muito tempo para ver nascer os dias...
Um beijinho
António Inglês

Maria disse...

Perante isto eu fico sem palavras para comentar.
Sem palavras, mesmo.....
... apenas com uma profunda tristeza e raiva...

Beijinho, António

António Inglês disse...

Maria

Esta tragédia continua e as religiões sempre andaram de mãos dadas com o poder...
Infelizmente sempre com maus resultados.
Um beijinho
António Inglês

Carlos Alberto Videira disse...

aconteceu no ruanda, e a comunidade internacional disse nunca mais (NEVER AGAIN) a genocidios

hoje, acontece em darfur onde por haver interesses chineses o mundo cala e consente. É triste. Talvez daqui a uns anos se faça o "HOTEL DARFUR" em Hollywood.

António Inglês disse...

E o mundo vai vivendo neste "reviralho " enquanto houver interesses escondidos.
Obrigado pela sua visita.
António Inglês