sexta-feira, 24 de outubro de 2008

O VELHO DA HORTA


Gil Vicente

Esta seguinte farsa é o seu argumento que um homem honrado e muito rico, já Velho, tinha uma horta: e andando uma manhã por ela espairecendo, sendo o seu hortelão fora, veio uma Moça de muito bom parecer buscar hortaliça, e o Velho em tanta maneira se enamorou dela que, por via de uma Alcoviteira, gastou toda a sua fazenda. A Alcoviteira foi açoitada, e a Moça casou honradamente. Entra logo o Velho rezando pela horta. Foi representada ao mui sereníssimo rei D. Manuel, o primeiro desse nome. Era do Senhor de M.D.XII.

Iª PARTE

Velho: Pater noster criador, Qui es in coelis, poderoso, Santificetur, Senhor,nomen tuum vencedor, nos céu e terra piedoso. Adveniat a tua graça, regnum tuum sem mais guerra; voluntas tua se faça sicut in coelo et in terra. Panem nostrum, que comemos, cotidianum teu é; escusá-lo não podemos; inda que o não mereceremos tu da nobis. Senhor, debita nossos errores, sicut et nos, por teu amor, dimittius qualquer error, aos nosso devedores. Et ne nos, Deus, te pedimos, inducas, por nenhum modo, in tentationem caímos porque fracos nos sentimos formados de triste lodo. Sed libera nossa fraqueza, nos a malo nesta vida; Amen, por tua grandeza, e nos livre tua alteza da tristeza sem medida.

Entra a Moça na horta e diz o Velho: Senhora, benza-vos Deus

Moça: Deus vos mantenha, senhor.

Velho: Onde se criou tal flor? Eu diria que nos céus.

Moça: Mas no chão.

Velho: Pois damas se acharão que não são vosso sapato!

Moça: Ai! Como isso é tão vão, e como as lisonjas são de barato!

Velho: Que buscais vós cá, donzela, senhora, meu coração?

Moça: Vinha ao vosso hortelão, por cheiros para a panela.

Velho: E a isso vinde vós, meu paraíso. Minha senhora, e não a aí?

Moça: Vistes vós! Segundo isso, nenhum Velho não tem siso natural.

Velho: Ó meus olhinhos garridos, mina rosa, meu arminho!

Moça: Onde é vosso ratinho? Não tem os cheiros colhidos?

Velho: Tão depressa vinde vós, minha condensa, meu amor, meu coração!

Moça: Jesus! Jesus! Que coisa é essa? E que prática tão avessa da razão!

Velho: Falai, falai doutra maneira! Mandai-me dar a hortaliça. Grão fogo de amor me atiça, ó minha alma verdadeira!

Moça: E essa tosse? Amores de sobreposse serão os da vossa idade; o tempo vos tirou a posse.

Velho: Mas amo que se moço fosse com a metade.

Moça: E qual será a desastrada que atende vosso amor?

Velho: Oh minha alma e minha dor, quem vos tivesse furtada!

Moça: Que prazer! Quem vos isso ouvir dizer cuidará que estais vivo, ou que estai para viver!

Velho: Vivo não no quero ser, mas cativo!

Moça: Vossa alma não é lembrada que vos despede esta vida?

Velho: Vós sois minha despedida, minha morte antecipada.

Moça: Que galante! Que rosa! Que diamante! Que preciosa perla fina!



Velho: Oh fortuna triunfante! Quem meteu um Velho amante com menina! O maior risco da vida e mais perigoso é amar, que morrer é acabar e amor não tem saída, e pois penado, ainda que amado, vive qualquer amador; que fará o desamado, e sendo desesperado de favor?

Moça: Ora, dá-lhe lá favores! Velhice, como te enganas!

Velho: Essas palavras ufanas acendem mais os amores.

Moça: Bom homem, estais às escuras! Não vos vedes como estais?

Velho: Vós me cegais com tristuras, mas vejo as desaventuras que me dais.

Moça: Não vedes que sois já morto e andais contra a natura?

Velho: Oh flor da mor formosura! Quem vos trouxe a este meu horto? Ai de mim! Porque, logo que vos vi, cegou minha alma, e a vida está tão fora de si que, partindo-vos daqui, é partida.

Moça: Já perto sois de morrer. Donde nasce esta sandice que, quanto mais na velhice, amais os Velhos viver? E mais querida, quando estais mais de partida, é a vida que deixais?

Velho: Tanto sois mais homicida, que, quando amo mais a vida, ma tirais. Porque meu tempo d’agora vai vinte anos dos passados; pois os moços namorados a mocidade os escora. Mas um Velho, em idade de conselho, de menina namorado... Oh minha alma e meu espelho!

Moça: Oh miolo de coelho mal assado!

Velho: Quanto for mais avisado quem de amor vive penando, terá menos siso amando, porque é mais namorado. Em conclusão: que amor não quer razão, nem contrato, nem cautela, nem preito, nem condição, mas penar de coração sem querela.

Moça: Onde há desses namorados? A terra está livre deles! Olho mau se meteu neles! Namorados de cruzados, isso si!...

Velho: Senhora, eis-me eu aqui, que não sei senão amar. Oh meu rosto de alfeni! Que em hora má eu vos vi.

Moça: Que Velho tão sem sossego!

Velho: Que garridice me viste?

Moça: Mas dizei, que me sentiste, remelado, meio cego?

Velho: Mas de todo, por mui namorado modo, me tendes, minha senhora, já cego de todo em todo.

Moça: Bem está, quando tal lodo se namora.

Velho: Quanto mais estais avessa, mais certo vos quero bem.

Moça: O vosso hortelão não vem? Quero-me ir, que estou com pressa.

Velho: Que fermosa! Toda a minha horta é vossa.

Moça: Não quero tanta franqueza.

Velho: Não pra me serdes piedosa, porque, quanto mais graciosa, sois crueza. Cortai tudo, é permitido, senhora, se sois servida. Seja a horta destruída, pois seu dono é destruído.



Moça: Mana minha! Julgais que sou a daninha? Porque não posso esperar, colherei alguma coisinha, somente por ir asinha e não tardar.

Velho: Colhei, rosa, dessas rosas! Minhas flores, colhei flores! Quisera que esses amores foram pérolas preciosas e de rubis o caminho por onde is, e a horta de ouro tal, com lavores mui sutis, pois que Deus fazer-vos quis angelical. Ditoso é o jardim que está em vosso poder. Podeis, senhora, fazer dele o que fazeis de mim.

Moça: Que folgura! Que pomar e que verdura! Que fonte tão esmerada!

Velho: N’água olhai vossa figura: vereis minha sepultura ser chegada.

Canta a Moça:

Cual es la niña que coge las flores sino tiene amores?

Cogia la niña la rosa florida; El hortelanico prendas le pedia sino tienes amores.

Assim cantando, colheu a Moça da horta o que vinha buscar e, acabado, diz: Eis aqui o que colhi; vede o que vos hei de dar.

Velho: Que me haveis vós de pagar, pois que me levais a mi? Oh coitado! Que amor me tem entregado e em vosso poder me fino, como pássaro em mão dado de um menino!

Moça: Senhor, com vossa mercê.

Velho: Por eu não ficar sem a vossa, queria de vós uma rosa.

Moça: Uma rosa? Para que?

Velho: Porque são colhidas de vossa mão, deixar-me-eis alguma vida, não isente de paixão mas será consolação na partida.

Moça: Isso é por me deter, Ora tomai, e acabar!

Tomou o Velho a mão: Jesus! E quereis brincar? Que galante e que prazer!

Velho: Já me deixais? Eu não vos esqueço mais e nem fico só comigo. Oh martírios infernais! Não sei por que me matais, nem o que digo.

Continua...

3 comentários:

Sophiamar disse...

Gosto muito dos teus posts. Acho-os sempre muito interessantes e quem aqui vem, sai inevitavelmente mais rico.
Desculpa a minha ausência.

Mil beijinhos

Bem hajas!

gaivota disse...

gil vicente era um dos autores obrigatórios no meu tempo de escola... já lá muitos anosssssss
ensaiávamos as peças, os autos, as farsas e representávamos lá na escola em caldas!
obrigada por o teres trazido aqui, quase que já nem me lembrava...
beijinhos

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá querido Amigo António, maravilhoso post, muito se aprende, no teu espaço...Adorei...SUBLIME!!!
Bom fim de semana e beijinhos de carinho