terça-feira, 28 de outubro de 2008

DIA NACIONAL DA TERCEIRA IDADE


29 DE OUTUBRO

A população no mundo está ficando cada vez mais velha e, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), por volta de 2025, pela primeira vez na história, haverá mais idosos do que crianças no planeta.

A existência, em Portugal, de um dia dedicado à Terceira Idade, tem como fim chamar a atenção para a situação financeira, social e afectiva em que vive a maior parte dos cidadãos desta faixa etária. Embora uma pequena parcela da população idosa aufira rendimentos suficientes para levar uma existência minimamente aceitável, a maioria passa bastantes dificuldades, competindo aos filhos suprir as necessidades económicas dos pais idosos e, sobretudo, distribuir-lhes carinho idêntico àquele que deles receberam enquanto foram jovens. As crianças, por sua vez, deverão respeitar e valorizar o papel dos avós na vida familiar. Socialmente, nada há mais triste que abandonar idosos em lares, não permitindo a cooperação e a partilha de saberes entre as diferentes gerações. Conta-se que, há muitos anos, numa terra longínqua, sempre que alguém atingia uma idade avançada, o seu filho entregava-lhe um cobertor e abandonava-o num monte, onde ficava a aguardar a morte. Certo dia, um idoso, ao chegar a sua vez de ser deixado no referido monte, devolveu o cobertor ao filho, dizendo-lhe: "fica com ele, assim já terás dois cobertores para te aqueceres quando também chegar a tua vez de para aqui vires". Só então o filho se apercebeu de quão terrível era aquele costume e trouxe o pai de volta ao seio familiar.

O Leme





Estudos mostram idosos portugueses com pensões baixas e vítimas de violência

Dois estudos sobre os idosos portugueses, hoje conhecidos, traçam um retrato triste da população na velhice. Um inquérito quis conhecer as atitudes em relação à reforma em 26 países em todo o mundo. Outro revelou que triplicaram os casos de violência contra idosos em Portugal.


A população portuguesa na reforma tem das pensões mais baixas da Europa, logo a seguir à Hungria e República Checa, com uma diferença de 110 euros entre o valor que recebe e o que necessitaria para saldar as despesas domésticas. Em contra ciclo com outros povos europeus, os portugueses consideram que deveriam trabalhar menos anos.


Os activos apontam que a reforma deveria ser aos 58-59 anos e os reformados estimam que a idade legal deveria ser aos 62. Cinquenta e dois por cento dos portugueses na reforma, e que responderam ao inquérito, obteve a pensão antes da idade estipulada na lei e por vontade própria.

As expectativas dos portugueses, que apontam para um decréscimo da qualidade de vida quando chegar o momento da reforma, acabam por ser confirmadas com a saída do mercado laboral. O estudo revela que o nível de vida dos reformados portugueses está abaixo da média dos países da Europa Ocidental. O facto de seis em dez reformados terem uma pensão inferior ao último salário justifica esta queda de rendimentos.

Estes dados explicam, pois, que os portugueses, tal como italianos, húngaros e japoneses, associem à palavra “reforma” os substantivos “morte, velhice, doença e dificuldades financeiras”.

O quadro sócio-económico influencia o retrato formulado para a idade da reforma, com os meios rurais a apontaram maiores níveis de pessimismo e a classe média-alta com uma abordagem mais positiva. Metade dos respondentes, neste contexto sócio-económico, revela intenção de desempenhar uma actividade profissional remunerada na reforma.



Japão e França acompanham Portugal na baixa expectativa quanto à evolução da qualidade de vida. Para colmatar a questão, 78 por cento da população activa japonesa quer continuar a exercer uma actividade remunerada durante a reforma.

Os franceses são quem mais consegue concretizar os projectos de viajar numa situação de reforma. Projectos comuns à maior parte dos portugueses que participaram no estudo, mas que não chegam a sair do papel. O apoio à família acaba por ser a principal ocupação dos idosos lusos. Contudo, o investimento em planos de baixo risco e um rendimento mínimo, assim como o planeamento da reforma com pouca antecipação (em comparação com outros povos europeus) poderão explicar que sejam os avós portugueses a mais esperarem ajuda financeira dos filhos.

Os futuros reformados portugueses dizem estarem pouco informados quanto ao valor da pensão, consideram que os sistemas sociais são uma tarefa do Estado, mas a partir de um acidente ou problema de saúde acabam por iniciar um plano de poupança acentuado, superior ao efectuado na França e Bélgica, apesar dos mais baixos rendimentos.

A Segurança Social portuguesa está numa situação caótica, com um índice negativo acima da média da Europa Ocidental e Central. O Japão lidera a lista do pessimismo numa avaliação do próprio sistema de Segurança Social, em que 98 por cento dos activos e 94 por cento dos reformados avaliam o seu sistema como caótico.

Os recursos financeiros e a saúde são apontados como factores de felicidade pelos reformados portugueses.

O estudo consistiu em 18.114 entrevistas telefónicas, realizadas em 26 países, pelo quarto ano consecutivo para a AXA Seguros pela GFK Metris, entre meados de Julho e início de Agosto de 2007. O objectivo do estudo é “analisar e perceber as atitudes em relação à reforma, comparar a percepção e a realidade dos activos versus reformados ou em reforma antecipada e analisar os resultados de Portugal de um ponto de vista internacional”.



Violência contra idosos aumenta em Portugal


Os crimes de violência a vítimas com mais de 64 anos aumentaram de oito para 25 mil nos últimos cinco anos revela um outro estudo, que cita dados da Polícia de Segurança Pública (PSP). O aumento das denúncias pode constituir uma explicação para a elevada subida dos números da violência, sustentou fonte da PSP ao "Diário de Notícias".

“Os idosos são vítimas silenciosas, já que não apresentam queixa por medo”, explicou fonte da Procuradoria-Geral da República. O gabinete de Pinto Monteiro recebe centenas de denúncias de casos de violência contra idosos. O procurador vai pedir às distritais de Lisboa, Porto, Évora e Coimbra para alertar autarquias, juntas e Segurança Social que denunciem os casos que cheguem ao seu conhecimento.

Pinto Monteiro disse que em 2008 será prioritário combater a violência nos idosos. “Não há nenhuma crítica que me faça desistir do meu caminho” e o facto de serem poucas as denúncias de violência nos idosos explica que a necessidade e urgência em “tomar medidas”.

A agressão a idosos reveste-se de variadas formas: negligência nos cuidados de saúde e abandono, abusos físicos, maus tratos psicológicos, negligência por abandono, negligência por administração de doses erradas de medicamentos para acalmar o idoso, negligência nos cuidados de saúde, abuso sexual e tentativas de extorsão de dinheiro (em casos de filhos com pais pouco lúcidos)

O estudo “Violência contra os mais velhos. Uma realidade escondida” foi realizado pelas psicólogas Cristina Verde e Ana Almeida. Citadas pelo “Diário de Notícias”, as investigadoras concluíram que “quanto maior for o índice de dependência do idoso e a precariedade social, mais provável é ocorrerem situações de maus tratos”.

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António Inglês


O VELHO DA HORTA


Vª PARTE

Vem um Alcaide com quatro Beleguins, e diz: Dona, levantai-vos daí!

Alcoviteira: Que quereis vós assim?

Alcaide: À cadeia!

Velho: Senhores, homens de bem, escutem vossas senhorias.

Alcaide: Deixai essas cortesias!

Alcoviteira: Não hei medo de ninguém, viste ora!

Alcaide: Levantai-vos daí, senhora, daí ao demo esse rezar! Quem vos dez tão rezadora?

Alcoviteira: Deixar-me ora, na má-hora, aqui acabar.

Alcaide: Vinde da parte de el-Rei!

Alcoviteira: Muita vida seja a sua. Não me leveis pela rua; deixar-me vós, que eu me irei.

Beleguins: Sus! Andar!



Alcoviteira: Onde me quereis levar, ou quem me manda prender? Nunca havedes de acabar de me prender e soltar? Não há poder!

Alcaide: Nada se pode fazer.

Alcoviteira: Está já a carocha aviada?!... Três vezes fui já açoitada, e, enfim, hei de viver.

Levam-na presa e fica o Velho dizendo: Oh! Que má-hora! Ah! Santa Maria! Senhora! Já não posso livrar bem. Cada passo se empiora! Oh! Triste quem se namora de alguém!

Vem uma Mocinha à horta e diz: Vedes aqui o dinheiro? Manda-me cá minha tia, que, assim como no outro dia, lhe mandeis a couve e o cheiro. Está pasmado?

Velho: Mas estou desatinado.

Mocinha: Estais doente, ou que haveis?

Velho: Ai! Não sei! Desconsolado, que nasci desventurado!

Mocinha: Não choreis! Mais mal fadada vai aquela!

Velho: Quem ?

Mocinha: Branca Gil.

Velho: Como?

Mocinha: Com cem açoites no lombo, uma carocha por capela, e atenção! Leva tão bom coração, como se fosse em folia. Que pancadas que lhe dão! E o triste do pregão - porque dizia: "Por mui grande Alcoviteira e para sempre degredada", vai tão desavergonhada, como ia a feiticeira. E, quando estava, uma Moça que passava na rua, para ir casar, e a coitada que chegava a folia começava de cantar: "ua Moça tão fermosa que vivia ali à Sé..."

Velho: Oh coitado! A minha é!




Mocinha: Agora, má hora e vossa! Vossa é a treva. Mas ela o noivo leva. Vai tão leda, tão contente, uns cabelos como Eva; por certo que não se atreva toda a gente! O Noivo, moço polido, não tirava os olhos dela, e ela dele. Oh que estrela! É ele um par bem escolhido!

Velho: Ó roubado, da vaidade enganado, da vida e da fazenda! Ó Velho, siso enleado! Quem te meteu desastrado em tal contenda? Se os jovens amores, os mais têm fins desastrados, que farão as cãs lançadas no conto dos amadores? Que sentias, triste Velho, em fim dos dias? Se a ti mesmo contemplaras, souberas que não vias, e acertaras.Quero-me ir buscar a morte, pois que tanto mal busquei. Quatro filhas que criei eu as pus em pobre sorte. Vou morrer. Elas hão de padecer, porque não lhe deixo nada; da quantia riqueza e haver fui sem razão despender, mal gastada.

FIM


segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O VELHO DA HORTA


IVª PARTE

Entra Branca Gil, Alcoviteira, e diz: Mantenha Deus vossa Mercê.

Velho: Olá! Venhais em boa hora! Ah! Santa Maria! Senhora. Como logo Deus provê!

Alcoviteira: Certo, oh fadas! Mas venho por misturadas, e muito depressa ainda.

Velho: Misturadas preparadas, que hão de fazer bem guisadas vossa vinda! Justamente nestes dias, em tempo contra a razão, veio amor, sem intenção, e fez de mim outro Macias tão penado, que de muito namorado creio que culpareis porque tomei tal cuidado; e do Velho destampado zombareis.

Alcoviteira: Mas, antes, senhor agora na velhice anda o amor; o de idade de amador por acaso se namora; e na corte nenhum mancebo de sorte não ama como soía. Tudo vai em zombaria! Nunca morrem desta morte nenhum dia. E folgo ora de ver vossa mercê namorado, que o homem bem criado até à morte o há de ser, por direito. Não por modo contrafeito, mas firme, sem ir atrás, que a todo homem perfeito mandou Deus no seu preceito: amarás.

Velho: Isso é o que sempre brado, Branca Gil, e não me vai, que eu não daria um real por homem desnamorado. Porém, amiga, se nesta minha fadiga vós não sois medianeira, não sei que maneira siga, nem que faça, nem que diga, nem que queira.

Alcoviteira: Ando agora tão ditosa (louvores a Virgem Maria!), que logro mais do que queria pela minha vida e vossa. De antemão, faço uma esconjuração c’um dente de negra morta antes que entre pela porta qualquer duro coração que a exorta.

Velho: Dizede-me: quem é ela?

Alcoviteira: Vive junto com a Sé. Já! Já! Já! Bem sei quem é! É bonita como estrela, uma rosinha de abril, uma frescura de maio, tão manhosa, tão sutil!...

Velho: Acudi-me Branca Gil, que desmaio.



Esmorece o Velho e a Alcoviteira começa a ladainha:

Ó precioso Santo Areliano, mártir bem-aventurado,

Tu que foste marteirado neste mundo cento e um ano;

Ó São Garcia Moniz, tu que hoje em dia

Fazes milagres dobrados, dá-lhe esforço e alegria,

Pois que és da companhia dos penados!

Ó Apóstolo São João Fogaça, tu que sabes a verdade,

Pela tua piedade, que tanto mal não se faça!

Ó Senhor Tristão da Cunha, confessor,

Ó mártir Simão de Sousa, pelo vosso santo amor.

Livrai o Velho pecador de tal cousa!

Ó Santo Martim Afonso de Melo, tão namorado.

Dá remédio a este coitado, e eu te direi um responso com devoção!

Eu prometo uma oração, todo dia, em quatro meses,

Por que lhe deis força, então, meu senhor São Dom João de Meneses!

Ó mártir Santo Amador Gonçalo da Silva, vós, que sois o melhor de nós,

Porfioso em amador tão despachado, chamai o martirizado

Dom Jorge de Eça a conselho!

Dois casados num cuidado, socorrei a este coitado deste Velho!

Arcanjo São Comendador Mor de Avis, mui inflamado,

Que antes que fosseis nado, fostes santo no amor!

E não fique o precioso Dom Anrique, outro Mor de Santiago;

Socorrei-lhe muito a pique, antes que demo repique com tal pago.

Glorioso São Dom Martinho, apóstolo e Evangelista, passai o fato em revista,

Porque leva mau caminho, e daí-lhe espírito!

Ó Santo Barão de Alvito, Serafim do deus Cupido, consolai o Velho aflito,

Porque, inda que contrito, vai perdido!

Todos santos marteirados, socorrei ao marteirado, que morre de namorado,

Pois morreis de namorados.

Para o livrar, as virgens quero chamar,

Que lhe queiram socorrer, ajudar e consolar,

Que está já para acabar de morrer.

Ó Santa Dona Maria Anriques tão preciosa,

Queirais-lhe ser piedosa, por vossa santa alegria!

E vossa vista, que todo o mundo conquista,

Esforce seu coração, porque à sua dor resista,

Por vossa graça e benquista condição.

Ó Santa Dona Joana de Mendonça, tão fermosa,

Preciosa e mui lustrosa mui querida e mui ufana!

Daí-lhe vida com outra santa escolhida que tenho in voluntas mea;

Seja de vós socorrida como de Deus foi ouvida a Cananea.

Ó Santa Dona Joana Manuel, pois que podeis, e sabeis, e mereceis.

Ser angélica e humana, socorrei!

E vós, senhora, por mercê, ó Santa Dona Maria de Calataúd,

Por que vossa perfeição lhe dê alegria.

Santa Dona Catarina de Figueiró, a Real,

Por vossa graça especial que os mais altos inclina!

E ajudará Santa Dona Beatriz de Sá:

Daí-lhe, senhora, conforto, porque está seu corpo já quase morto.

Santa Dona Beatriz da Silva, que sois aquela mais estrela que donzela,

Como todo o mundo diz!

E vós, sentida Santa Dona Margarida de Sousa, lhe socorrei,

Se lhe puderdes dar vida, porque está já de partida sem porquê!

Santa Dona Violante de Lima, de grande estima,

Mui subida, muito acima de estimar nenhum galante!

Peço-vos eu, e a Dona Isabel de Abreu, co siso que Deus vos deu,

Que não morra de sandeu em tal idade!...

Ó Santa Dona Maria de Ataíde, fresca rosa, nascida em hora ditosa,

Quando Júpiter se ria!

E, se ajudar Santa Dona Ana, sem par de, Eça, bem aventurada,

Podei-lo ressuscitar, que sua vida vejo estar desesperada.

Santas virgens, conservadas em mui santo e limpo estado,

Socorrei ao namorado, que vos vejais namoradas!

Velho:

Óh! Coitado!

Ai triste desatinado!

Ainda torno a viver?

Cuidei que já era livrado.

Alcoviteira: Que esforço de namorado e que prazer! Que hora foi aquela!

Velho: Que remédio me dais vós?

Alcoviteira: Vivereis, prazendo a Deus, e casar-vos-ei com ela.

Velho: É vento isso!

Alcoviteira: Assim seja o paraíso. Que isso não é tão extremo! Não curedes vós de riso, que eu farei tão de improviso como o demo. E também doutra maneira se eu me quiser trabalhar.

Velho: Ide-lhe, logo, falar e fazei com que me queira, pois pereço; e dizei-lhe que lhe peço se lembre que tal fiquei estimado em pouco preço, e, se tanto mal mereço, não no sei! E, se tenho esta vontade, não deve ela s’agastar; antes deve de folgar ver-nos morto nesta idade. E, se reclama que sendo tão linda dama por ser Velho me aborrece, dizei-lhe: é um mal quem desama porque minh’alma que a ama não envelhece.

Alcoviteira: Sus! Nome de Jesus Cristo! Olhai-me pela cestinha.

Velho: Tornai logo, fada minha, que eu pagarei bem isto.



Vai-se a Alcoviteira, e fica o Velho tangendo e cantando a cantiga seguinte:

Pues tengo razón, señora,

Razón es que me laa oiga!

Vem a Alcoviteira e diz o Velho: Venhais em boa hora, amiga!

Alcoviteira: Já ela fica de bom jeito; mas, para isto andar direito, é razão que vo-lo diga: eu já, senhor meu, não posso, sem gastardes bem do vosso, vencer uma Moça tal.

Velho: Eu lhe pagarei em grosso.

Alcoviteira: Aí está o feito nosso, e não em al. Perca-se toda a fazenda, por salvardes vossa vida!

Velho: Seja ela disso servida, que escusada é mais contenda.

Alcoviteira: Deus vos ajude, e vos dê mais saúde, que assim o haveis de fazer, que viola nem alaúde nem quantos amores pude não quer ver. Falou-me lá num brial de seda e uns trocados...

Velho: Eis aqui trinta cruzados, Que lhe façam mui real!

Enquanto a Alcoviteira vai, Velho torna a prosseguir o seu cantar e tanger e, acabado, torna ela e diz: Está tão saudosa de vós que se perde a coitadinha! Há mister uma saiazinha e três onças de retroz.

Velho: Tomai.

Alcoviteira: A benção de vosso pai. (Bom namorado é o tal!) pois gastais, descansai. Namorados de al! Ai! Não valem real!Ui! Tal fora, se me fora! Sabeis vós que me esquecia? Uma amiga me vendia um broche de uma senhora. Com um rubi para o colo, de marfi, lavrado de mil lavores, por cem cruzados. Ei-los aí! Isto, má hora, isto sim são amores!

Vai-se o Velho torna a prosseguir a sua música e, acabada, torna a Alcoviteira e diz: Dei, má-hora, uma topada. Trago as sapatas rompidas destas vindas, destas idas, e enfim não ganho nada.

Velho: Eis aqui dez cruzados para ti.

Alcoviteira: Começo com boa estréia!

Continua...


domingo, 26 de outubro de 2008

MORREU AIDA BAPTISTA


“Mais uma figura de relevo das artes que nos deixou. O Teatro de revista, fica assim mais pobre. Eu sei que é o ciclo normal da vida, uns aparecem, outros vão-nos deixando, mas ninguém ocupará a lugar de ninguém. Aida Baptista reservou nas nossas memórias o seu lugar e dela nos lembraremos sempre. Como tantos outros, não foi uma partida porque ela será eterna, foi apenas um até um dia destes! Que descanse em paz!”




Actriz do teatro de revista foi encontrada sem vida na madrugada de sexta-feira.

Aida Baptista foi encontrada morta em sua casa. Tinha 79 anos e será recordada como uma das actrizes do teatro de revista mais populares e mais completas. Retirou-se no final da década de 70 por razões de saúde. Depois disso, fez apenas duas reaparições, uma na peça Boeing Boeing, na qual contracenou com Octávio de Matos, outra no Teatro Maria Matos, para o espectáculo Antologia da Revista.

O corpo da actriz esteve em câmara ardente na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, de onde saiu ontem, sábado, pelas 15h00, para o Cemitério dos Prazeres. Aida Baptista ficou sepultada no Talhão dos Artistas.

Dona de uns enormes olhos azuis e de uma personalidade forte, Aida Baptista representou, cantou e dançou e deixou marcas na memória colectiva do espectáculo português, onde partilhou o palco com Nicolau Breyner, Camilo de Oliveira, Ribeirinho e Raul Solnado. Em 1971 recebeu um Prémio Bordalo, atribuído pela Casa da Imprensa, pela sua participação em Saídas da Casca.

Redacção Caras - 25 Out 2008

Fotos da Net

António Inglês


O VELHO DA HORTA


IIIª PARTE

Vem a Mulher do Velho e diz: Hui! Que sina desastrada! Fernandeanes, que é isto?

Velho: Oh pesar do anticristo. Oh velha destemperada! Vistes ora?

Mulher: E esta dama onde mora? Hui! Infeliz dos meus dias! Vinde jantar em má hora: por que vos meter agora em musiquias?

Velho: Pelo corpo de São Roque, vai para o demo a gulosa!

Mulher: Quem vos pôs aí essa rosa? Má forca que vos enforque!

Velho: Não maçar! Fareis bem de vos tornar porque estou tão sem sentido; não cureis de me falar, que não se pode evitar ser perdido!

Mulher: Agora com ervas novas vos tornastes garanhão!...

Velho: Não sei que é, nem que não, que hei de vir a fazer trovas.

Mulher: Que peçonha! Havei, infeliz, vergonha ao cabo de sessenta anos, que sondes vós carantonha.

Velho: Amores de quem me sonha tantos danos!

Mulher: Já vós estais em idade de mudardes os costumes.

Velho: Pois que me pedis ciúmes, eu vo-los farei de verdade.

Mulher: Olhai a peça!



Velho: Que o demo em nada me empeça, senão morrer de namorado.

Mulher: Está a cair da tripeça e tem rosa na cabeça e embeiçado!...

Velho: Deixar-me ser namorado, porque o sou muito em extremo!

Mulher: Mas vos tome inda o demo, se vos já não tem tomado!

Velho: Dona torta, acertar por esta porta, Velha mal-aventurada! Saia, infeliz , desta horta!

Mulher: Hui, meu Deus, que serei morta, ou espancada!

Velho: Estas velhas são pecados, Santa Maria vai com a praga! Quanto mais homem as afaga, tanto mais são endiabradas!

(Canta)

Volvido nos han volvido,

volvido nos han:

por uma vecina mala

meu amor tolheu-lhe a fala

volvido nos han.

Continua...