domingo, 8 de junho de 2008

O MILAGRE DAS ROSAS

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Isabel de Aragão foi, e é ainda, a mais popular rainha de Portugal. A mulher d'el-rei D. Dinis é talvez muito mais conhecida como Rainha Santa Isabel, santa de muitos altares por esse país fora, lendária pelos seus prodígios que o povo lhe atribui, entre os quais o célebre milagre das rosas.



Com doze anos apenas, veio ela para Portugal, tendo casado em Trancoso com D. Dinis, que muito a amou então. Trazia consigo a fama de excepcionais virtudes que a natureza acrescentara aos dotes físicos de uma beleza pouco vulgar, calma e equilibrada. Tão maravilhado ficou o rei-poeta que logo lhe fez tantas doações de senhorios de terras como nenhuma outra rainha portuguesa até então possuíra.



Uma antiga Relação descreve do seguinte modo a benemerência desta mulher sem par:
«Mandava Isabel vestir os farrapos que avistava, visitava os enfermos ulcerosos, punha sem repugnância as mãos sobre as cabeças dos doentes e fazia-os tratar pelos seus médicos e enfermeiros.




Distribuía, nos dias solenes do ano, numerosos socorros pelos domicílios às pessoas necessitadas e a muitos mosteiros, tanto do reino como estrangeiros. Os seus haveres entravam sempre, em quantidade maior ou menor, para todas as edificações eclesiásticas e, algumas vezes, para as de utilidade geral, como fontes, pontes e caminhos.(...) Deleitava-se em compor as frequentes discórdias entre as casas nobres; procurava por todos os modos proteger as donzelas e viúvas, para que a miséria as não lançasse na perdição. Os seus costumes eram, em tudo, modestos, humildes e castos.»



Porém, esta mulher, que toda a vida tentou distribuir e dar amor, não foi feliz. Bem depressa D. Dinis a trocou por várias outras mulheres, de quem tinha filhos que trazia para a corte. Quase esquecida pelo marido, Isabel procurou manter, sempre, uma serenidade exemplar e tratou, frequentemente, de apaziguar os ódios e lutas que as intrigas palacianas acendiam no filho, o futuro rei Afonso IV, e no próprio Rei, como de resto é bem conhecido.



O célebre milagre das rosas aconteceu numa época em que D. Dinis decidira pôr cobro àquilo que dizia ser um esbanjamento do tesouro público, por sua mulher.
Segundo conta a lenda, tão querida do nosso povo, passou-se o caso como vou contar:
Foi D. Dinis avisado por um homem do Paço que no dia seguinte, contrariando as ordens reais, sairia Isabel com ouro e prata para distribuir pelos pobres.



Exaltado, D. Dinis resolveu imediatamente que ao outro dia iria surpreender a Rainha quando ela fosse a sair com o carregamento de esmolas.
Na manhã seguinte, uma gélida manhã de sol de Janeiro, estava D. Isabel com as aias no jardim, trazendo a ponta do manto recolhida e plena de moedas, quando lhe surgiu el-Rei fingindo-se encontrado.



Empalideceu a Rainha, conhecendo como conhecia os acessos do marido, receosa do que diria se descobrisse o dinheiro que trazia.
Saudaram-se, contudo, cortesmente e D. Dinis perguntou:
- Onde ides, senhora, tão pela manhã?
- Armar os altares do Convento de Santa Cruz, meu senhor!
- E que levais no regaço, minha rainha?



Houve um instante de hesitações antes que a Rainha respondesse:
- São rosas, real senhor!
- Rosas, senhora rainha? - gritou encolerizado D. Dinis. - Rosas, em Janeiro?! Quereis, sem dúvida, enganar-me!
Digna e muito muito lentamente, largando a ponta do manto, respondeu Isabel:
- Senhor, não mente uma Rainha de Portugal!



E todos viram cair-lhe do manto, do local onde sabiam só haver moedas, uma chuva belíssima de rosas, brancas, ímpares.



Texto e Fotos da Net

António Inglês

sexta-feira, 6 de junho de 2008

BOM FIM DE SEMANA E... FORÇA PORTUGAL!




Aos verdadeiros amigos deixo este momento de reflexão e desejo-lhes um excelente fim de semana.
Aos conhecidos... apenas um bom fim de semana!
António Inglês

A LENDA DO MILAGRE DA NAZARÉ

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Por aqui se ficou o cavalo de D. Fuas... conta a lenda...


Creio que toda a gente conhece a lenda do milagre do Sítio da Nazaré, na qual D. Fuas Roupinho escapou por pouco às teias do Diabo, que o tentou sob a forma de um veado. Mas antes de recordarmos essa velha história vamos conhecer um pouco mais da figura desse semi-herói do tempo do primeiro rei de Portugal.


D. Fuas Roupinho perseguindo o veado que segundo diz a lenda seria o diabo...


D. Fuas Roupinho era um guerreiro de nobre ascendência, companheiro indómito de Afonso Henriques. Diz a lenda que era seu meio-irmão, mas na verdade foi aio de um filho bastardo do velho conde D. Henrique, D. Pedro Afonso, este sim meio-irmão e companheiro de armas de Afonso Henriques.


O Castelo de Leiria


Em 1179, D. Fuas era alcaide-mor de Coimbra. Certo dia, encontrava-se ele no Castelo de Leiria, vieram trazer-lhe a notícia de que se encontrava na Alcáçova de Porto de Mós o rei mouro de Mérida, Gamir, que, como era seu costume, repousava das batalhas naquela região sobre todas preferida pelas belezas naturais.


Pormenor do Castelo de Leiria


O cristão pensou que aquela era uma oportunidade única de livrar a Península de mais alguns muçulmanos, já que nessa altura tinha consigo um grupo de guerreiros suficientemente forte e coeso para cair sobre os infiéis. Assim, mandou os charameleiros, tocarem a reunir e algum tempo depois tinha reunidos no terreiro do Castelo de Leiria todos os cavaleiros que minutos antes andavam espalhados pela vila.


Armadura portuguesa


Era um burburinho no terreiro. Os ginetes de guerra escoiceavam impacientes, batendo com os cascos na terra seca e solta, obrigando os condéis a prodígios de força e equilíbrio para os segurarem. Os cavaleiros, reunidos em trono de D. Fuas Roupinho, acompanhados pelos seus criados, combinavam a táctica da surtida. Era um grupo ricamente colorido com os seus briais de cores vivas onde se viam as armas de suas casas, por debaixo dos quais brilhavam as cotas de malha. De capacete debaixo do braço e com as espadas e punhais prontas a utilizar, discutiam acaloradamente o melhor caminho a tomar para Porto de Mós de modo a não serem avistados pelas vigias mouras.


... apesar de serem em maior número os mouros foram derrotados...


Por fim, montaram precipitadamente e a hoste saiu de Leiria num trote alegre e descuidado, parecendo querer desmentir a sanha guerreira com que viriam a atacar Gamir e a sua gente.
Destes, uns passeavam despreocupadamente pelos campos em redor de Porto de Mós e os outros descansavam na Alcáçova. Nem uns nem outros deram pela chegada dos cristãos, e, apesar de serem muito mais numerosos do que a hoste de D. Fuas, foram derrotados e chacinados, quase sem terem tido oportunidade de se defender.


O belo Castelo de Porto de Mós


Os mouros sobreviventes foram levados como prisioneiros para Coimbra, onde o alcaide-mor os entregou a D. Afonso Henriques. E, como recompensa, o Rei deu a D. Fuas a alcaidaria de Porto de Mós.
Em seguida, D, Fuas Roupinho dirigiu-se a Lisboa incumbido pelo Rei de organizar, juntamente com os homens-bons da cidade, uma armada que fizesse frente aos mouros que na costa faziam corso e impediam a pesca e o tráfego comercial. Já bem intenso nessa época.


Cabo Espichel


Os portugueses de então não tinham grande prática da faina marítima, mas, utilizando os conhecimentos náuticos dos pescadores e a coragem e audácia natural dos guerreiros, foi-lhes possível vencer os piratas mouros. Esta batalha deu-se junto ao cabo Espichel e os vencedores trouxeram apresados vários navios que, segundo conta a lenda, lhes possibilitaram a surtida seguinte, até Ceuta. Aí surpreenderam os mouros, que novamente sofreram muitas baixas e perderam um grande número de navios, uns porque foram afundados, outros porque vieram para o reino.


O pinhal de Leiria


Conta-se que, depois destas batalhas, D. Fuas Roupinho foi para Porto de Mós repousar e praticar a sua distracção favorita: a montaria. Diz a nossa história que tudo se passou no dia 14 de Setembro de 1182. D. Fuas saíra com os companheiros para a mata do Sítio. Levavam lanças e bestas, os seus olifantes ou buzinas de caça e iam vestidos mais levemente do que quando partiram para a guerra. Sobre as túnicas curtas tinham colocado uma capa que esvoaçava quando galopavam e em substituição da loriga tinham coberto os cabelos com gorros de pele.
Lentamente, embrenharam-se nos caminhos da mata, olhando à volta com atenção para descortinarem entre o arvoredo as hastes de um veado ou rastos de lebres e javalis. Estava um nevoeiro espesso e D. Fuas acabou por perder-se dos companheiros.


... o veado... o tal que teria sido o diabo...


De repente, viu um veado enorme, de porte real, que parecia desafiá-lo, e esporeou a montanha para não perder aquela oportunidade. O veado deixou que o cavaleiro se aproximasse audaciosamente e lançou-se em louca correria em direcção à beira do penhasco rochoso. D. Fuas, que galopava meio cego de entusiasmo, não reparou onde se encontrava senão quando viu o veado atirar-se no abismo. Tentou sopear o cavalo, mas a velocidade era tal que nenhuma força humana o conseguiria parar. Num segundo, o cavaleiro anteviu as consequências e insensivelmente invocou a Senhora da Nazaré que, de imediato, surgiu no céu, frente à montada. O cavalo estacou imediatamente, fincando com tanto desespero os cascos traseiros na rocha, que ainda hoje existe.


Capela da Memória no Sítio da Nazaré


No fundo do precipício, nas rochas frente ao mar, o veado estatelou-se e desfez-se em fumo negro: era o Diabo a tentar o cavaleiro.
Em agradecimento deste miraculoso salvamento, D. Fuas mandou construir a capela da Memória, ali, junto à lapa onde fora encontrada a imagem da Senhora da Nazaré, no mesmo sítio onde o seu cavalo estacara.
Dois anos mais tarde, D. Fuas morreu, não em perseguição de demónios com corpo de veado, mas dando luta aos mouros com a sua armada de vinte e dois navios, nas costas de Ceuta.



Mulher da Nazaré estendendo o peixe ao sol...


A lenda termina aqui, mas não posso acabar esta postagem sem vos deixar algumas fotos da Nazaré e das suas gentes que são já uma imagem de marca de toda a Região.



Olhares da Nazaré presos no mar...


Esta terra marcou toda a minha vida, desde logo porque parte das minhas férias de miúdo aqui foram passadas com meus pais e irmãs.



Chegando da faina da pesca antigamente...


Com cinco anos, e por ser muito traquina, acabei por me perder por entre o mar de gente que a praia sempre tem em plena época de verão. Por sorte, no meio de um pranto infindável, resolvi continuar andando de um lado para o outro na passadeira de madeira que existia na areia, paralela ao paredão e em frente às barracas que se situavam de costas para a marginal e de frente para o mar da Nazaré.


Homens e mulheres ajudavam a puxar as redes e os barcos...


Ao fim de algumas horas, (segundo rezam as crónicas de família que ficaram desta aventura) acabei sendo encontrado por meus pais, que choravam não sei se de tristeza se de alegria.



Arte xávega já em desuso


Foram muitas férias de profunda felicidade nesta lindíssima praia, onde me lembro me nasceu o gosto pelo folclore nacional. Chegava a fugir de casa para ir assistir aos ensaios do Tá Mar.


Sete saias da mulher da Nazaré


Foi nesta terra também que passei uma lua de mel fabulosa, que meteu insolação e tudo, e hoje bem perto dela vivo e lá gosto de ir comer o meu crepe numa das esplanadas do largo principal da Nazaré.



Também as parelhas de bois prestavam o seu apoio puxando os barcos mais pesados...


O mar da Nazaré, lindo mas de respeito...


... e o Tóino que foi ao mar e ainda não voltou... não nos fiques com ele mar traiçoeiro...


Família da Nazaré posando para a foto


Viuva espreitando o mar desde o Sítio


O luto


A pele marcada pela dura faina do mar...


... enfrentando as ondas sempre que o tempo o permitia...


O antigo elevador da Nazaré, hoje remodelado e diferente. Ao fundo a praia.

Texto e Fotos da Net

António Inglês

quarta-feira, 4 de junho de 2008

LENDA DE NOSSA SENHORA DA NAZARÉ

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O culto a Maria, mãe de Jesus, desenvolveu-se desde os primeiros séculos do Cristianismo e, permanece até aos dias de hoje como um dos mais importantes para os católicos de todo o Mundo. A zona dos antigos coutos de Alcobaça, onde a Nazaré se inclui, não é excepção. Desde tempos imemoriais que o culto mariano possui nesta região grande devoção e afecto popular, afirmando-se especialmente o culto à Nossa Senhora da Nazaré como um dos mais antigos (pelo menos desde o século XIV) e relevantes, chegando mesmo a ultrapassar a mera esfera de influência regional.


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A Lenda de Nossa Senhora da Nazaré e a História do Milagre a Dom Fuas Roupinho estão, desde há muito, presentes no imaginário colectivo do povo português. Para a sua divulgação em muito contribuiu a obra do cisterciense Frei Bernardo de Brito, que na sua Monarquia Lusitânia associa o culto medieval à Senhora da Nazaré com o milagre ao cavaleiro D. Fuas Roupinho.



Assim, e segundo a narrativa do monge cisterciense que rapidamente se instalou na memória de todos, a Imagem da Virgem é proveniente de Nazaré da Galileia, esculpida em madeira pelo próprio São José e pintada por São Lucas.

No século IV a Imagem encontrava-se na posse do monge grego Ciríaco que a colocou sob a protecção de São Jerónimo, sendo posteriormente aconselhado por este a levá-la para África, para a entregar a Santo Agostinho, bispo de Hipona.


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Foi Santo Agostinho quem trouxe a Venerável Imagem para a Península Ibérica oferecendo-a ao Mosteiro de Cauliniana, situado na região de Mérida, Espanha, realizando aí muitos milagres. A Virgem de Nazaré permaneceu no dito Mosteiro até ao século VIII, aquando da conquista da Península pelos Mouros.



Após a derrota dos exércitos cristãos na Batalha de Guadalete, o último rei dos Godos, Dom Rodrigo refugiou-se no Mosteiro de Cauliniana, fugindo depois, conjuntamente com o Frei Romano às invasões árabes, levando com eles a Sagrada Imagem de Nossa Senhora da Nazaré e um cofre com as relíquias de São Brás e São Bartolomeu.



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Dirigindo-se sempre para Ocidente, os dois fugitivos chegaram finalmente, no dia 22 de Novembro, ao local que é hoje a Pederneira. Daí avistaram uma ermida abandonada no monte de São Brás, para onde se encaminharam em seguida. Quando lá chegaram El-Rei Dom Rodrigo manifestou vontade de ali permanecer sozinho, pelo que se dirigiu então Frei Romano para o Sítio, levando consigo a Imagem da Virgem e o cofre com as relíquias. Ao chegar ao promontório colocou a Imagem e o cofre numa reentrância da rocha.




Quando se separaram os dois companheiros combinaram que apenas quebrariam o seu isolamento ao acenderem, cada qual em seu monte e no fim de todas as tardes, uma fogueira, dando sinal um ao outro de que estavam vivos. Isto aconteceu até ao dia em que Dom Rodrigo não avistou o sinal de Frei Romano. Dom Rodrigo dirigiu-se então ao Sitio onde encontrou o seu amigo já morto. O Rei deu então sepultura ao corpo junto à gruta onde estava a Imagem da Senhora da Nazaré e partiu…


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A Imagem permaneceu naquele local até ser encontrada, já no tempo do Rei Dom Afonso Henriques, pelo Capitão de Porto de Mós, Dom Fuas Roupinho, quando este se encontrava no local durante uma caçada. Passando posteriormente a venerar a Imagem da Virgem sempre que andava por aquelas bandas.



No dia 14 de Setembro de 1182, num dia de nevoeiro, durante mais uma caçada, Dom Fuas arremessou o seu cavalo na direcção de um veado. Cego pela névoa, perseguiu o veado até à última ponta do penedo, só então se apercebendo que o animal tinha caído no abismo, e que ele próprio estava no extremo da rocha. É neste momento que o cavaleiro se lembra da Imagem de Nossa Senhora escondida ali perto, invocando o seu auxílio para se salvar. De imediato o cavalo para, ficando apenas com as patas traseiras apoiadas no rochedo, permitindo assim que Dom Fuas se salva-se da morte certa.


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Após o Milagre, o Cavaleiro foi a gruta onde estava a Imagem para agradecer e orar à sua protectora, fazendo-lhe também a promessa de erigir naquele mesmo local uma capela em sua honra, a Ermida da Memória.


Foto de Dias dos Reis tirada da Net

Mas desta lenda de D. Fuas Roupinho falarei em outra postagem.


Texto e Fotos da Net

António Inglês