quinta-feira, 1 de maio de 2008

1º de Maio – Dia Mundial do Trabalho

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“A história do Primeiro de Maio mostra, portanto, que se trata de um dia de luto e de luta, mas não só pela redução da jornada de trabalho, mais também pela conquista de todas as outras reivindicações de quem produz a riqueza da sociedade.” – Perseu Abramo



O Dia Mundial do Trabalho foi criado em 1889, por um Congresso Socialista realizado em Paris. A data foi escolhida em homenagem à greve geral, que aconteceu em 1º de maio de 1886, em Chicago, o principal centro industrial dos Estados Unidos naquela época.

Milhares de trabalhadores foram às ruas para protestar contra as condições de trabalho desumanas a que eram submetidos e exigir a redução da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias. Naquele dia, manifestações, passeatas, piquetes e discursos movimentaram a cidade. Mas a repressão ao movimento foi dura: houve prisões, feridos e até mesmo mortos nos confrontos entre os operários e a polícia.

Em memória dos mártires de Chicago, das reivindicações operárias que nesta cidade se desenvolveram em 1886 e por tudo o que esse dia significou na luta dos trabalhadores pelos seus direitos, servindo de exemplo para o mundo todo, o dia 1º de maio foi instituído como o Dia Mundial do Trabalho.



Chicago, maio de 1886

O retrocesso vivido nestes primórdios do século XXI remete-nos directamente aos piores momentos dos primórdios do Modo de Produção Capitalista, quando ainda eram comuns práticas ainda mais selvagens. Não apenas se buscava a extracção da mais-valia, através de baixos salários, mas até mesmo a saúde física e mental dos trabalhadores estava comprometida por jornadas que se estendiam até 17 horas diárias, prática comum nas indústrias da Europa e dos Estados Unidos no final do século XVIII e durante o século XIX. Férias, descanso semanal e aposentadoria não existiam. Para se protegerem em momentos difíceis, os trabalhadores inventavam vários tipos de organização – como as caixas de auxílio mútuo, precursoras dos primeiros sindicatos.



Com as primeiras organizações, surgiram também as campanhas e mobilizações reivindicando maiores salários e redução da jornada de trabalho. Greves, nem sempre pacíficas, explodiam por todo o mundo industrializado. Chicago, um dos principais pólos industriais norte-americanos, também era um dos grandes centros sindicais. Duas importantes organizações lideravam os trabalhadores e dirigiam as manifestações em todo o país: a AFL (Federação Americana de Trabalho) e a Knights of Labor (Cavaleiros do Trabalho). As organizações, sindicatos e associações que surgiam eram formadas principalmente por trabalhadores de tendências políticas socialistas, anarquistas e social-democratas. Em 1886, Chicago foi palco de uma intensa greve operária. À época, Chicago não era apenas o centro da máfia e do crime organizado era também o centro do anarquismo na América do Norte, com importantes jornais operários como o Arbeiter Zeitung e o Verboten, dirigidos respectivamente por August Spies e Michel Schwab.



Como já se tornou praxe, os jornais patronais chamavam os líderes operários de cafajestes, preguiçosos e canalhas que buscavam criar desordens. Uma passeata pacífica, composta de trabalhadores, desempregados e familiares silenciou momentaneamente tais críticas, embora com resultados trágicos no pequeno prazo. No alto dos edifícios e nas esquinas estava posicionada a repressão policial. A manifestação terminou com um ardente comício.



No dia 3, a greve continuava em muitos estabelecimentos. Diante da fábrica McCormick Harvester, a policia disparou contra um grupo de operários, matando seis, deixando 50 feridos e centenas presos, Spies convocou os trabalhadores para uma concentração na tarde do dia 4. O ambiente era de revolta apesar dos líderes pedirem calma.

Os oradores se revezavam; Spies, Parsons e Sam Fieldem, pediram a união e a continuidade do movimento. No final da manifestação um grupo de 180 policiais atacou os manifestantes, espancando-os e pisando-os. Uma bomba estourou no meio dos guardas, uns 60 foram feridos e vários morreram. Reforços chegaram e começaram a atirar em todas as direcções. Centenas de pessoas de todas as idades morreram.

A repressão foi aumentando num crescendo sem fim: decretou-se “Estado de Sítio” e proibição de sair às ruas. Milhares de trabalhadores foram presos, muitas sedes de sindicatos incendiadas, criminosos e gangsters pagos pelos patrões invadiram casas de trabalhadores, espancando-os e destruindo seus pertences.

A justiça burguesa levou a julgamento os líderes do movimento, August Spies, Sam Fieldem, Oscar Neeb, Adolph Fischer, Michel Shwab, Louis Lingg e Georg Engel. O julgamento começou dia 21 de junho e desenrolou-se rapidamente. Provas e testemunhas foram inventadas. A sentença foi lida dia 9 de Outubro, no qual Parsons, Engel, Fischer, Lingg, Spies foram condenados à morte na forca; Fieldem e Schwab, à prisão perpétua e Neeb a quinze anos de prisão.



Spies fez a sua última defesa:

"Se com o nosso enforcamento vocês pensam em destruir o movimento operário - este movimento de milhões de seres humilhados, que sofrem na pobreza e na miséria, esperam a redenção – se esta é sua opinião, enforquem-nos. Aqui terão apagado uma faísca, mas lá e acolá, atrás e na frente de vocês, em todas as partes, as chamas crescerão. É um fogo subterrâneo e vocês não poderão apagá-lo!"



Parsons também fez um discurso:

"Arrebenta a tua necessidade e o teu medo de ser escravo, o pão é a liberdade, a liberdade é o pão". Fez um relato da acção dos trabalhadores, desmascarando a farsa dos patrões com minúcias e falou de seus ideais:

"A propriedade das máquinas como privilégio de uns poucos é o que combatemos, o monopólio das mesmas, eis aquilo contra o que lutamos. Nós desejamos que todas as forças da natureza, que todas as forças sociais, que essa força gigantesca, produto do trabalho e da inteligência das gerações passadas, sejam postas à disposição do homem, submetidas ao homem para sempre. Este e não outro é o objectivo do socialismo".



No dia 11 de Novembro, Spies, Engel, Fischer e Parsons foram levados para o pátio da prisão e executados. Lingg não estava entre eles, pois suicidou-se. Seis anos depois, o governo de Illinois, pressionado pelas ondas de protesto contra a iniquidade do processo, anulou a sentença e libertou os três sobreviventes.

Em 1888 quando a AFL realizou o seu congresso, surgiu a proposta para realizar nova greve geral em 1º de maio de 1890, a fim de se estender a jornada de 8 horas às zonas que ainda não haviam conquistado.

No centenário do início da Revolução Francesa, em 14 de Julho de 1889, reuniu-se em Paris um congresso operário marxista. Os delegados representavam três milhões de trabalhadores. Esse congresso marca a fundação da Segunda Internacional. Nele Herr Marx expulsou os anarquistas, cortou o braço esquerdo do movimento operário num momento em que a concordância entre todos os socialistas, comunistas e anarquistas residia na meta: chegada a uma sociedade sem classes, sem exploração, justa, fraterna e feliz. Os meios a empregar-se para atingir aquele objectivo constituíam os principais pontos de discordância: Herr Marx, com toda a sua genialidade incontestável, levou adiante a tese de que somente através de uma “Ditadura do Proletariado” se poderia ter os meios necessários à abolição da sociedade de classes, da exploração do homem pelo homem. Mikhail Bakunin, radical libertário, contrapondo-se a Marx, criou a nova máxima: “Não se chega à Luz através das Trevas.” Segundo o Anarquista russo, deve-se buscar uma sociedade feliz, sem classes, sem exploração e sem “ditadura” intermediária de espécie alguma! A tendência maioritária do Congresso ficou em torno de Herr Marx e os Anarquistas foram, vale repetir, expulsos. Muitos têm apontado nesta ruptura de 1890 os motivos do fracasso do socialismo dito “real”: enfatizou-se mais do que o necessário a questão da “ditadura” e o “proletariado” acabou esquecido. A própria China de hoje (2004) é disso exemplo: uma pequenina casta de empresários lidera ditatorialmente uma nação equalizada à força aproximando perigosamente aquela tendência do neoliberalismo...



Fechando este parêntese que já vai longo, voltemos à reunião do Congresso Operário de 1890: na hora da votar as resoluções, o belga Raymond Lavigne encaminhou uma proposta de organizar uma grande manifestação internacional, ao mesmo tempo, com data fixa, em todas os países e cidades pela redução da jornada de trabalho para 8 horas e aplicação de outras resoluções do Congresso Internacional. Como nos Estados Unidos já havia sido marcada para o dia 1º de maio de 1890 uma manifestação similar, manteve-se o dia para todos os países.

No segundo Congresso da Segunda Internacional em Bruxelas, de 16 a 23 de Setembro de 1891, foi feito um balanço do movimento de 1890 e no final desse encontro foi aprovada a resolução histórica: tornar o 1º de maio como "um dia de festa dos trabalhadores de todos os países, durante o qual os trabalhadores devem manifestar os objectivos comuns de suas reivindicações, bem como sua solidariedade".



Como vemos, a greve de 1º de maio de 1886 em Chicago, nos Estados Unidos, não foi um fato histórico isolado na luta dos trabalhadores, ela representou o desenrolar de um longo processo de luta em várias partes do mundo que, já no século XIX, acumulavam várias experiências no campo do enfrentamento entre o capital (trabalho morto apropriado por poucos) versus trabalho (seres humanos vivos, que amam, desejam, constroem e sonham!).

O incipiente movimento operário que nascera com a revolução industrial, começava a atentar para a importância da internacionalização da luta dos trabalhadores. O próprio massacre ao movimento grevista de Chicago não foi o primeiro, mas passou a simbolizar a luta pela igualdade, pelo fim da exploração e das injustiças.

Muitos foram os que tombaram na luta por mundo melhor, do massacre de Chicago aos dias de hoje, um longo caminho de lutas históricas foi percorrido. Os tempos atuais são difíceis para os trabalhadores, a nova revolução tecnológica criou uma instabilidade maior, jornadas mais longas com salários mais baixos, cresceu o número de seres humanos capazes de trabalhar, porém para a nova ordem eles são descartáveis. Essa é a modernidade neoliberal, a realidade do século que iniciamos, a distância parece pequena em comparação com a infância do capitalismo, parecemos muito mais próximos dela do que da pseudo racionalidade neoliberal, que muitos ideólogos querem fazer crer.



A realidade nos mostra a face cruel do capital, a produção capitalista continua a fazer apelo ao trabalho infantil, somente na Ásia, seriam 146 milhões nas fábricas, e segundo as Nações Unidas, um milhão de crianças são lançadas no comércio sexual a cada ano!

A situação da classe trabalhadora não é fácil; nesse período houve avanços, mas a nova revolução tecnológica do final do século XX trouxe à tona novamente questões que pareciam adormecidas. Tal qual no final do século XIX, a redução da jornada de trabalho é a principal bandeira do movimento sindical brasileiro; na outra ponta uma sucessão de governos neoliberais (Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva) fazem o inimaginável pela supressão de direitos trabalhistas conquistados a duras penas ao longo dos anos (13º salário, direito a férias remuneradas, multa de 40% por rompimento de contrato de trabalho, Licença Maternidade, etc.) ampliando as dificuldades ao trabalho, principalmente face a uma crise de desemprego crescente, e simplificando cada vez mais a vida da camada patronal. Neste sentido, naturalmente, a reflexão das lutas históricas passadas torna-se essencialmente importante, como aprendizagem para as lutas atuais.

Fonte:

http://www.culturabrasil.pro.br/diadotrabalho.htm



O FIM DA DITADURA

CRONOLOGIA DA ÉPOCA DA REVOLUÇÃO ENTRE 25 DE ABRIL E 26 DE MAIO DE 1974

25 de Abril de 1974

O Estado Novo começou a ser desmantelado logo no dia 25 de Abril, pelo MFA e pela Junta de Salvação Nacional. As polícias, tal como o próprio Governo, foram os primeiros alvos da Revolução. A censura, uma poderosa arma da ditadura, foi, ela própria, riscada pelo lápis azul.
Presos políticos são libertados, pondo fim a anos de perseguições. As figuras do regime são exiladas e regressam os membros da resistência, como o Álvaro Cunhal e o Mário Soares.
A reconquista da liberdade de expressão percorre as páginas dos jornais, rádio e televisão, os próprios cartazes de cinema.
Tudo prepara o caminho para o regime democrático.

26 de Abril de 1974

Entrada das forças militares de oposição ao governo na sede da PIDE/DGS, na rua António Maria Cardoso.


26 de Abril de 1974 às 01:00

Prisão dos comandantes dos Regimentos de Cavalaria 7 e Lanceiros 2.

26 de Abril de 1974 às 01:15

Formação da Junta de Salvação Nacional.

26 de Abril de 1974 às 01:30

O General Spínola, presidente da Junta de Salvação Nacional (JSN) lê uma Proclamação na RTP. A JSN é constituída pelos seguintes oficiais:

  • General António Ribeiro de Spínola,
  • General Francisco da Costa Gomes,
  • Brigadeiro Jaime Silvério Marques (Exército),
  • General Diogo Neto (ausente em Moçambique),
  • Coronel Carlos Galvão de Melo (Força Aérea),
  • Capitão de Mar e Guerra João Pinheiro de Azevedo,
  • Capitão de Fragata António Rosa Coutinho (Marinha).

A JSN assume o Poder até à nomeação de um Governo Provisório e nomeia Presidente da República o General Spínola.


26 de Abril de 1974 às 01:45

É transmitido novo comunicado do MFA.


26 de Abril de 1974 às 07:00

Por decisão do MFA, Américo Tomás e Marcelo Caetano vão para a Madeira. Transmissão de novo comunicado do MFA.


26 de Abril de 1974 às 07:30

Após a discussão entre os elementos da JSN e do MFA, durante a madrugada no Posto de Comando, o Major Vítor Alves lê à comunicação social o Programa do MFA.


26 de Abril de 1974 às 08:15

O General Spínola dá a primeira conferência de imprensa da JSN, no Posto de Comando, seguida da distribuição do Programa do MFA à comunicação social.


26 de Abril de 1974 às 23:30

É dada a amnistia aos crimes políticos através do Decreto-Lei 173/74.


27 de Abril de 1974 às 00:05

Libertação dos presos políticos de Caxias. A Junta de Salvação Nacional nomeia novos Chefes dos Estados-Maiores dos três ramos das Forças Armadas. O 1º de Maio é decretado feriado nacional obrigatório.


28 de Abril de 1974

Regresso de vários exilados, entre os quais o Dr. Mário Soares. A JSN envia para a imprensa diplomas em que destitui dos seus cargos o Presidente da República (Almirante Américo Tomás), o Presidente do Conselho de Ministros (Prof. Marcelo Caetano), os ministros e todos os membros do governo da ditadura.


Os exilados podem regressar. Comunicado da JSN em 30 de Abril de 1974

1.º A Junta de Salvação Nacional torna público que poderão regressar imediatamente ao Pais, no pleno exercício dos seus direitos de cidadãos, os exilados políticos portugueses.
2.º Esta medida, cujo alcance e significado traduz inequivocamente o desejo de realizar a harmonia e convivência pacífica de todos os portugueses, impõe a necessidade de os portugueses até agora no exílio se integrarem na vida do Pais, que não dispensa a sua válida contribuição para a construção de um Portugal novo, nesta hora de júbilo.


29 de Abril de 1974

A JSN nomeia Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas o General Costa Gomes.


30 de Abril de 1974

Regresso do exílio do Dr. Álvaro Cunhal.


1 de Maio de 1974

Manifestações populares em todo o país, que só em Lisboa juntou 500.000 pessoas, em apoio ao MFA e ao novo regime democrático.



2 de Maio de 1974

É dada a amnistia aos desertores através do Decreto-Lei 180/74.

Considerando que muitos militares, quer pertencentes aos quadros permanentes, quer no âmbito do serviço militar obrigatório, se ausentaram do Pais por motivos de natureza ideológica e política, devido ao regime então em vigor, deixando de cumprir as suas obrigações militares; Considerando que muitos jovens se ausentaram do País, recusando-se, pelos mesmos motivos, a cumprir as disposições da Lei do Serviço Militar; Tendo em atenção o desejo manifestado por todos esses portugueses de se integrarem de novo na comunidade nacional, com vista à reconstrução que se inicia;
Nestes termos, tendo a Junta de Salvação Nacional assumido os poderes legislativos que competem ao Governo, decreta, para valer como lei, o seguinte:

ARTIGO 1º
É amnistiado o crime de deserção, previsto nos artigos 163.° a 176.° do Código de Justiça Militar.

ARTIGO 2º
São amnistiadas as infracções previstas nos artigos 27º n.º 3 dos artigos 30º, 59º, 60º e 64º da Lei n.º 2135, de 11 de Julho de 1968 (Lei do Serviço Militar).

ARTIGO 3º
1. Para cumprimento das suas obrigações militares os cidadãos abrangidos pela presente amnistia apresentar-se-ão, no prazo de quinze dias a contar da data da entrada no Pais, nos locais a designar.
2. Os cidadãos sujeitos a cumprimento de serviço efectivo em regime disciplinar especial por motivos políticos passam a regime normal.

ARTIGO 4º
Este decreto-lei entra imediatamente em vigor.

Visto e aprovado pela Junta de Salvação Nacional em 1 de Maio de 1974. Publique-se.
O Presidente da Junta de Salvação Nacional, António de Spínola.

Para ser publicado em todos os Boletins Oficiais dos Estados e províncias ultramarinas.


10 de Maio de 1974

É decretada a amnistia militar através do Decreto-Lei 194/74.

Considerando ser justo alargar as últimas medidas de clemência a outros delitos previstos na lei militar, merecedores de idêntico tratamento; Convindo reajustar o regime da prisão preventiva no foro militar e simplificar os trâmites prescritos para a aplicação da amnistia;
Tendo a Junta de Salvação Nacional assumido os poderes legislativos que competem ao Governo, decreta, para valer como lei, o seguinte:

ARTIGO 1º
1. São amnistiados todos os crimes essencialmente militares, praticados até ao dia 25 de Abril, exclusive, a que não caiba pena superior à de presídio militar de seis anos e um dia a oito anos, ou equivalente.
2. São amnistiadas todas as infracções disciplinares militares praticadas até à mesma data.

ARTIGO 2º
A amnistia não prejudica a responsabilidade civil emergente dos factos delituosos praticados, nem compreende a anulação dos efeitos das penas, se já verificados, tais como transferência, mudança de quadro, baixa de posto ou de serviço, eliminação, demissão, reforma e descida na escala de antiguidade.

ARTIGO 3º
1. Quando haja lugar a prisão preventiva, o arguido pode ser solto desde que:
a) A infracção por que é arguido não caiba pena superior à de presídio militar de seis anos e um dia a oito anos, ou equivalente;
b) Não seja inconveniente a sua soltura, considerando a sua perigosidade ou fundado receio de fuga.
2. Enquanto o arguido deva permanecer nas fileiras para cumprimento das suas obrigações militares e até ao termo destas, ficará, depois de solto, apresentado na unidade a que for destinado, desempenhando serviço regular, mas sem possibilidade de licenças.
3. Ao arguido, solto nos termos do n.º 1, que haja cumprido o tempo de serviço obrigatório, poderá ser concedida licença registada até à decisão final do processo, com a obrigação de se apresentar quando for ordenada a sua comparência para qualquer acto judicial, sob pena da aplicação do § único do artigo 463º do Código de Justiça Militar.

ARTIGO 4º
Os artigos 429º e 457º do Código de Justiça Militar passam a ter a seguinte redacção:
ARTIGO 429º
1.° Quando o facto ou factos constantes dos autos constituírem crime previsto nas leis militares ou comuns, ordenar o prosseguimento do processo, salvo os casos previstos no n.º 6 deste preceito e no 1º parágrafo do artigo 6º;
6.º Se entender que a acção penal está extinta, assim o declarará, por despacho nos autos, ordenando que o processo seja arquivado;
ARTIGO 457º
3.º Se entender, de acordo com o parecer do auditor, que a acção penal está extinta, assim o declarará por despacho nos autos, ordenando que o processos seja arquivado.

ARTIGO 5º
Para aplicação em processo disciplinar militar da amnistia constante do Decreto-Lei n.° 173/74, e competente uma comissão provisória nomeada pelo Presidente da Junta de Salvação Nacional e deste dependente.

ARTIGO 6º
Este decreto-lei entra imediatamente em vigor.

Visto e aprovado pela Junta de Salvação Nacional em 10 de Maio de 1974. Publique-se.
O Presidente da Junta de Salvação Nacional, António de Spínola.

Para ser publicado em todos os Boletins Oficias dos Estados de Angola e Moçambique e províncias ultramarinas.


12 de Maio de 1974

Dissolução da Companhia Móvel da Polícia (Polícia de Choque).


15 de Maio de 1974

É nomeado o General Spínola para Presidente da República pela JSN. No mesmo dia é nomeado Adelino da Palma Carlos como Primeiro-Ministro do I Governo Provisório, constituído por:

  • Mário Soares (Negócios Estrangeiros),
  • Pereira de Moura, Álvaro Cunhal e Sá Carneiro (Ministros sem pasta),
  • Almeida Santos (Coordenação Interterritorial),
  • Firmino Miguel (Defesa),
  • Manuel Rocha (Equipamento Social e Ambiente),
  • Eduardo Correia (Educação e Cultura),
  • Magalhães Mota (Administração Interna),
  • Avelino Gonçalves (Trabalho),
  • Mário Monteiro (Assuntos Sociais),
  • Raúl Rêgo (Comunicação Social).

É anunciada a criação do novo Conselho de Estado, integrado pelos membros da JSN e 14 personalidades militares e civis nomeadas pelo Presidente da República.


16 de Maio de 1974

Toma posse o I Governo Provisório.

19 de Maio de 1974

Américo Tomás e Marcelo Caetano partem para o Brasil, onde obtêm asilo político.


26 de Maio de 1974

Criação do Salário Mínimo Nacional, no valor de 3.300$00.


Fonte:

http://www.cm-odivelas.pt/Extras/MFA/cronologia.asp?canal=7


Fotos da Net

António Inglês

quarta-feira, 30 de abril de 2008

A LENDA DA COVA ENCANTADA OU DA CASA DA MOURA ZAIDA

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Na serra de Sintra, perto do Castelo dos Mouros, existe uma rocha com um corte que a tradição diz marcar a entrada para uma cova que tem comunicação com o castelo.




É conhecida pela Cova da Moura ou a Cova Encantada e está ligada a uma lenda do tempo em que os Mouros dominavam Sintra e os cristãos nela faziam frequentes incursões. Num dos combates, foi feito prisioneiro um cavaleiro nobre por quem Zaida, a filha do alcaide, se apaixonou.




Dia após dia, Zaida visitava o nobre cavaleiro até que chegou a hora da sua libertação, através do pagamento de um resgate. O cavaleiro apaixonado pediu a Zaida para fugir com ele mas Zaida recusou, pedindo-lhe para nunca mais a esquecer.




O nobre cavaleiro voltou para a sua família mas uma grande tristeza ensombrava os seus dias. Tentou esquecer Zaida nos campos de batalha, mas após muitas noites de insónia decidiu atacar de novo o castelo de Sintra. Foi durante esse combate que os dois enamorados se abraçaram, mas a sorte ou o azar quis que o nobre cavaleiro tombasse ferido.




Zaida arrastou o seu amado, através de uma passagem secreta, até uma sala escondida nas grutas e, enquanto enchia uma bilha de água numa nascente próxima para levar ao seu amado, foi atingida por uma seta e caiu ferida.




O cavaleiro cristão juntou-se ao corpo da sua amada e os dois sangues misturaram-se, sendo ambos encontrados mais tarde já sem vida.




Desde então, em certas noites de luar, aparece junto à cova uma formosa donzela vestida de branco com uma bilha que enche de água para depois desaparecer na noite após um doloroso gemido...




Texto e Fotos da Net

António Inglês

UM NOVO DESAFIO!

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A Carminda Pinho do (http://forum-cidadania.blogspot.com/) deixou-me lá no seu cantinho, um novo desafio. Há uns tempos que não recebia nenhum e não sei se estarei ainda treinado para o fazer mas cá vai, a ver vamos do que serei capaz.


DESAFIO:

Qualidades - honestidade, lealdade, sensibilidade...

Defeitos – horários é mentira, teimosia, guloso...

Gostos - - de rir, brincar, chocolate, mar, sol e do Benfica!...

Não passarei sem ir viver para o Minho...

Detestas - a crueldade, hipocrisia, favas, wisky...

Pessoa – Eusébio.

Família grande, a minha.

Homem - o meu pai, meus filhos...

Mulher - a minha mãe, as minhas filhas...

Sorriso - dos meus filhos.

Perfume - JOVAN

Carro – o meu que não troco por nada deste mundo, mesmo dando-me tanta despesa.

Paixão - cegueira...

Amor – olhando à volta, tenho bastantes...

Olhos – dizem tudo...

Sal – depende...na comida sim qb ... na vida sim, muito...dá sabor...

Chuva – junto à lareira...

Mar - confidente...

Livro – em especial, neste momento, nenhum... falta-me o tempo...

Filmes – já gostei mais, agora prefira as pantufas...

Músicas – toda aquela que mexe comigo, desde jazz até ao folclore...

Dinheiro – onde??????

Silêncio – bem tocado, adoro...

Solidão – faz falta uma vez por outra, mas assusta-me...

Flor – a minha mulher...

Sinceridade – na ponta da língua, com todos os inconvenientes...

Sonhos – muitos.... uns alegram-me.... outros assustam-me...

Cidade – Viana do Castelo.

País - Portugal.

Não viver sem – a família...

Nunca deixar de – ter o coração ao pé da boca...

E este desafio vai direitinho para estes meus amigos/as:

- http://escritoaquente.blogspot.com/ Escrito a Quente

- http://simecqcultura.blogspot.com/ Simecq

- http://maufeitiodalisa.blogspot.com/ Lisa’s Mau Feitio

- http://ocheirodailha.blogspot.com/ O Cheiro da Ilha

- http://6feira.blogspot.com/ Sexta-Feira

e para todos aqueles que o queiram fazer aqui nos comentários, ou no seu blog, desafiados estão também.

Tenham uma boa semana!

António Inglês


terça-feira, 29 de abril de 2008

A LENDA DA CAPARICA


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Tudo começou há longos anos, quando uma menina contemplava o mar, numa tarde calma e branca de calor.




Ela não sabia que estava a ser observada por um velho, que se sentia intrigado com aquela criança, embrulhada numa capa. Foi falar com a menina e ela explicou-lhe que vivia só, que se chamava Miúda e que sempre tivera aquela capa.




O velho estava admirado. Como era possível que uma menina tão pequena andasse pelo mundo sem eira nem beira? Propôs-lhe viverem juntos, pois ele também estava só e tinha uma casinha no alto do monte, junto ao mar.




Assim foi. Ficaram juntos, ele envelhecendo e ela a crescer. Viviam com o que havia: o sol, o mar, os mariscos das rochas. Um dia, o velho achou que era tempo de se ir embora. Pediu à miúda a sua capa, porque tinha frio. Ela pôs-lha sobre o corpo, deu-lhe a mão e deixou-se dormir juntamente com ele. Quando acordou, ele já estava morto e a Miúda enterrou-o numa sepultura perto da igrejinha da Senhora do Monte. Deixou de chamar-se Miúda e escolheu para si o nome de Mulher.




Continuou a viver naquela casa, solitária. A sua vida era a mesma de sempre; as suas vestes, a velha capa. A Mulher viveu ali tantos anos, que lhe perdeu a conta.

Certo dia, reparou que a gente da zona começava a olhá-la estranhamente, como se tivessem medo dela. Não atinava porquê, já que ela nada mais era do que a Mulher velha e solitária, a Mulher da capa que, afinal, todos conheciam desde sempre. E agora ouvia dizer baixinho, quando descia à aldeia: "Bruxa, bruxa!".




Entristeceu, porque desconhecia o motivo por que lhe chamavam tal nome e porque não sabia que dentro de si saía uma luz desconhecida, quando no alto do monte erguia os braços ao sol ou à lua, na sua saudação diária.




As pessoas foram contar ao Rei e este mandou-a chamar, dizendo-lhe que ela era poderosa e que fazia ouro e malefícios. Ela ficou muito admirada e replicou que era tão pobre que só tinha aquela capa desde que nascera. O Rei olhou a Mulher e viu que era verdade. Mandou-a embora, com vergonha.




Um dia, quando as gentes da aldeia souberam da morte da Mulher pelo dobre dos sinos da Senhora do Monte, acorreram à velha morada cheias de curiosidade. Sobre o seu corpo estava a velha capa e sobre esta encontrava-se um papel destinado ao Rei. Nele estava escrito: "Meu Senhor: deixo-vos esta capa que tenho desde que nasci. Encontrei nela todo o ouro que diziam que eu tinha: foi o meu velho companheiro que, antes de se ir embora, aí o meteu. Eu nunca o tinha visto e agora que vi, não preciso dele. Utilizai-o nesta terra para que todos tirem dele o que mais desejarem. Afinal a minha capa era uma capa rica. Que o meu Deus vos abençoe."




Foi assim que apareceu o nome de Caparica, em memória de uma Mulher que ali surgiu um dia, quando era Míuda, vinda dos caminhos da Terra, coberta por uma capa já velha.

Texto e Fotos da Net

António Inglês

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A CAPELA DE ANTEPORTA FOI RESTAURADA!


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João Luís Fonseca Inglês, Otília Inglês e população local


Padre Diogo celebrando a Missa

Leitura na Missa por uma habitante da terra



No passado dia 27 de Abril de 2008, ANTEPORTA, uma pequena aldeia Ribatejana, do Distrito de Santarém, Concelho de Rio Maior, um dos 39 lugares da Freguesia de Rio Maior, escreveu mais um dia da sua história comunitária com a inauguração das obras de restauração da sua capela.

Lugar outrora escondido, com acesso às localidades vizinhas por caminhos de terra batida e mal conservada, apresenta hoje um aspecto bem diferente e é local de passagem, com tráfego já apreciável diga-se, para quem transita para Arrouquelas, Manique do Intendente, Assentiz ou até mesmo Alcoentre.


Celebrando a Missa


Sr. Padre Diogo, pároco do Concelho

Frontaria da Capela de Anteporta restaurada


A reduzida população deste lugar, viu crescer a pulso, a maioria dos seus melhoramentos, fruto do empenho e conhecimentos junto do poder central, de alguns dos seus naturais, aproximando-a assim da civilização, da qual se encontrava separada pelo isolamento de um Portugal menor.

Com a luz eléctrica e água canalizada, alcatroamento de ruas e caminhos e a construção da sua capela, Anteporta encontrou-se consigo mesma, e abriu para o mundo com a mesma dimensão de antigamente, mas de uma forma mais enérgica e mais actualizada.

Nos dias de hoje, as crianças já vão à escola de transportes públicos, não há quase ninguém que não permita que o mundo lhe entre em casa via televisão, e os locais apropriados são poucos para o estacionamento dos carros dos seus habitantes.

Dr. Feliciano Júnior e Carlos Manuel, director e chefe de redacção do Região de Rio Maior


Dr. Silvino Sequeira e Luís Agostinho


Dr. Silvino Sequeira, Dr. Carlos Nazaré e Sr. João Inglês (de costas)


O que foi antigamente a Casa do Povo, inaugurada há muitos anos pelo então Ministro das Corporações, Dr. Gonçalves Proença, é hoje a Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Anteporta. É ali que a população se junta sempre que a ocasião se proporciona.

Mercê de um punhado de jovens, alguns com idade já avançada mas não menos jovens, foi possível recuperar umas instalações que teimariam por cair de abandono.

A Capela, julgo que erigida a Stº António, entradita nos anos, via o seu interior degradar-se ano após ano. A Igreja, não querendo ou não podendo, deixou que a mesma se fosse “acabando”, e o futuro afigurava-se cinzento.


Rua Joaquim Correia Inglês, em Anteporta


José Paulo Bernardes e populares


Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Anteporta, antiga Casa do Povo


Mais uma vez, a população tomou nas suas mãos a iniciativa de apelar junto dos órgãos do poder local, nomeadamente Câmara Municipal de Rio Maior, e também do Governo Central, missão espinhosa e complicada. Meses de insistência, caminhos desbravados e calcorreados em direcção a quem de direito, acabaram por dar os seus frutos, e de novo se pode afirmar, que o Homem quis e a obra Renasceu.

Está a Capela de Anteporta recuperada, está a população de Anteporta de parabéns, está a terra de novo a caminho do futuro, que o futuro das nossas pequenas populações faz-se destas pequenas conquistas.


A caminho do repasto


Aspecto da população no interior da Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Anteporta


Dª Margarida Inglês, mulher de João Inglês


Centena e meia de populares, naturais e seus descendentes, assistiram a este acto solene, que teve Missa às 15 horas, dada pelo Padre Diogo, e foi seguído de um lanche primorosa e abundantemente preparado pelas senhoras da localidade nas instalações da ACR e D de Anteporta. A confraternização prolongou-se pela tarde e noite dentro, sendo fácil ver estampado no rosto da população a satisfação pelo acontecimento.

A estas cerimónias estiveram presentes o actual Presidente da Câmara Municipal de Rio Maior, Dr. Carlos Nazaré, o anterior Presidente Dr. Silvino Sequeira, a Presidente da Junta de Freguesia de Rio Maior, Isaura Morais, o Dr. Feliciano Júnior, Director do Jornal Região de Rio Maior, e distintos membros da Comissão Obreira que em tão boa hora deitou mãos à obra, não podendo deixar passar em claro o Sr. João Inglês, grande impulsionador desta comissão.


Mais um aspecto do lanche


João Luís Correia Inglês e a filha de José Bernardes, Drª Olívia Bernardes


João Luís Correia Inglês e Dr. Silvino Sequeira ex-presidente da Câmara Municipal de Rio Maior


Numa época em que invariavelmente se diz mal dos nossos autarcas, ficam os parabéns à Câmara Municipal de Rio Maior, pela resposta positiva que deu a esta iniciativa, ao Estado que comparticipou com a maior fatia financeira e que permitiu que a obra acontecesse, e à Comissão Obreira.

Aos dois Presidentes da câmara que estiveram presentes, o actual e o anterior, fica uma palavra de gratidão pelo empenho e colaboração que qualquer deles deu e pela forma como respondem presente aos legítimos anseios das populações do seu Concelho.


Isaura Morais, Presidente da Junta de Freguesia de Rio Maior


O evento misturou juventude com veterania num convívio salutar de gerações
Luís Agostinho e Inês Costa



Dr. Silvino Sequeira e mulher, Drª Maria Elsa Sequeira

Não posso acabar esta pequena e modesta crónica, sem deixar algumas palavras do muito orgulho que sinto por ver envolvidos no progresso desta pequena terra, os nomes de meu pai Joaquim Correia Inglês, pelo muito que fez em prol dos seus conterrâneos, e na acção decisiva que teve na construção desta Capela, e o de meu tio, João Luís Correia Inglês porque dele vieram as forças e o querer para que o dia de 27 de Abril fosse uma realidade, seguindo as pisadas de seu irmão, reforçando os laços afectivos que Anteporta tem com a nossa família, mas dando um exemplo de humildade e vontade de trabalhar em prol da comunidade e do seu semelhante. Bem hajam os dois, e que Deus conserve por muitos e bons anos o João Luis, que está bem vivo e tem de continuar a mostrar o seu empenho na sua terra natal, bem como a toda a sua família onde me incluo. Permita a força divina que nós os seus descendentes possamos continuar a saber merecer o nome que eles tão bem souberam e sabem honrar.


Dançou-se pela tarde fora


Era visível no rosto da população, a satisfação pelo evento de 27 de Abril de 2008



José Paulo Bernardes e sua mulher, Dª Maria Violete Bernardes dançando e mostrando aos jovens como se faz.

António Inglês

domingo, 27 de abril de 2008

LENDAS DE PORTUGAL

*

Meus amigos, acabei de chegar de mais uma confraternização e amanhã, domingo parto para outra.

O tempo não tem facilitado em nada a minha vida blogosférica e como as muitas actividades em que me encontro envolvido se aliaram a estes convívios de fim de semana, a situação piorou drasticamente.

Curiosamente, tinha entrado numa fase em que nada me faria prever tanta azáfama nem tanta solicitação social, politica e profissional.

Conquistei amizades e hábitos dos quais não gostaria de me afastar, mas nem sempre conseguimos controlar os acontecimentos.

Jamais quereria que os meus amigos da blogosfera me considerassem um ingrato ou mais um dos tantos que por aqui passam esporadicamente, e que ao fim de um certo tempo acabam por se afastar sem mais nem menos.

Não o faria, mas também não quero continuar numa situação de membro ausente que apenas gosta de ver os amigos por sua casa, e acaba por não lhes retribuir a amizade e a dedicação que têm demonstrado para comigo.

Desta forma, e por uma questão de coerência, sou obrigado a comunicar a todos, que não obstante a muita amizade que lhes dedico, a muita consideração que todos me merecem, e também o muito carinho que todos me oferecem, me vejo obrigado a repensar toda a minha participação neste mundo tão “nosso”, tão importante na minha vida mas que me tem trazido sob enorme pressão. É que o facto de não ter tempo, não obsta a que não esteja sempre que posso, a deitar o olho de soslaio para aqui, verificando como todos me tratam, me visitam, sem que eu lhes possa corresponder da mesma forma.

É injusto, é incorrecto e massacrante, fazendo com que ande em constante estado de ansiedade, porque não quero perder os amigos, porque não posso vir aqui o que gostaria.

Vou pois entrar numa fase bastante calma, e como penso ter encontrado a forma de conciliar tudo, inicio hoje um ciclo de postagens sobre “Lendas de Portugal” que me permitirá espaçar mais o intervalo sobre elas.

Sei que talvez leve algum tempo, mas este ritmo vai ter de abrandar e permitir-me-á mais e melhor atenção a todos vós.

Deixo a todos os meus agradecimentos por tudo o que me têm dado, prometendo que a pouco e pouco irei respondendo aos vossos comentários e irei passando por casa de cada um, mostrando-vos que continuo convosco no coração. Espero por isso a vossa compreensão.

Um abraço bem fraterno a todos vós meus amigos.

António Inglês



A LENDA DA BOCA DO INFERNO

Num tempo esquecido existia por ali um enorme castelo, paço habitado por um homem de aspecto feroz e satânico que, nas horas da sua actividade, cultivavam a arte da feitiçaria.
Um dia, esse homem decidiu casar-se, e para escolher a mais bela mulher das redondezas consultou a sua lâmina de cristal de rocha para identificar o local e a casa onde deveria mandar buscá-la. Quando viu a mulher que os seus cavaleiros trouxeram, ficou estupefacto.
Era estupefactamente mais bela do que imaginara ao vê-la sugerida na lâmina das adivinhações. Diz-se que lhe deu uma fúria de ciúmes e tratou de a esconder da cobiça alheia para preservar o seu amor, mas penso que a escondeu do mundo para se proteger a si mesmo, que não a soubera cativar.



Encarcerou a mulher numa torre inexpugnável e solitária, e guardou-a como se guardam aquelas coisas que ao mesmo tempo se amam e detestam, ou temem. Escolheu-lhe para guardião o mais fiel dos seus cavaleiros, exactamente o homem que nunca a vira, para que mais cegamente a guardasse.
Frente ao mar o tempo passava, cronometrados os dias pelas marés, as semanas pela sucessão dos dias e das noites, os meses pela lua. Tão só se sentia o guardião como a cativa do seu senhor. O horizonte de ambos era o mar eternamente sempre outro e o mesmo. A música que a ambos chegava era a dos seus pensamentos, a do marulhar revolto ou terno das ondas, o sibilo do vento por entre as rochas. Assim passava o tempo e não passava, porque o tempo para ser tempo tem de se referenciar à vida, e ali não se passava nada que fosse vivo.



Até que, um dia, o ócio provocou no cavaleiro uma curiosidade inadiável. Insensivelmente, deu por si a pensar que mulher era aquela que merecia tão triste reclusão. Pouco depois, encontrou-se a desejar abrir a porta da torre para ver ao menos o rosto da mulher que guardava. Por fim, achou-se frente à porta de chave na mão.
Meteu-a na fechadura e rodou. A porta rangeu de ferrugem quando o cavaleiro se apoiou nela lentamente. E enquanto subia a escada de caracol que levava à câmara da cativa, talvez mil pensamentos se lhe entrecruzassem silenciosamente no cérebro: o que iria encontrar? Seria bonita ou horrorosa? Se calhar era aleijada! Muda ou doente! E se estivesse morta? Não, na realidade enquanto subia as escadas não pensou nada. Estava apenas expectante e quem vive expectativas não se pergunta nada, ainda que na sua espera hajam inscritas todas as interrogações do mundo.



Frente à porta da câmara da sua cativa, o cavaleiro parou para acalmar o coração e tomar coragem. Quando conseguiu dominar a tremura das pernas e das mãos, empurrou a porta. O sol, que entrava por uma das ogivas da torre, bateu-lhe nos olhos e cegou-o por momentos. Pouco a pouco, retomou a visão e a névoa foi-se dissipando até o deixar frente à mulher que a sua expectativa não pudera imaginar.
Semivoltada, a cativa da torre, tão espantada quanto o guardião, olhou-o interrogativa, esperando a palavra que não veio, acabando por perguntar:
-Quem és tu, cavaleiro? Porque vens perturbar-me a solidão?
E o homem, quando achou de novo a sua voz, respondeu finalmente:
-Sou o vosso guardião, senhora! –e baixinho disse para si mesmo: «Agora o compreendo a ele…»
-O meu guardião! Guardião de quê? Desta solidão sem nome e sem razão? Vê, vê como se consomem os meus dias, sem prazer, sem ilusão!... ao menos tu…
-Eu , senhora? Eu estou ali em baixo tão só como vós, e a guardar o quê, para quê?! Mas a partir de hoje talvez possamos partilhar as nossas horas perdidas neste ermo. Tudo o que quiserdes, senhora, ordenai! Levar-vos-ei onde pedirdes!...


Diz a lenda que assim nasceu um louco amor assente sobre a cumplicidade dos segredos e das solidões. Os dias nunca mais foram lentos, o tempo fugiu à desfilada e instalou-se eterno e instante.
Um dia olharam-se, cativa e guardião, e perguntaram-se o que faziam ali. Porque estou eu prisioneira? De que sou eu guardião? Acharam aquela torre uma masmorra absurda. Que guarda um guardião sem chave? Como se sentir prisioneiro de uma prisão aberta?
Partiram.
Esqueceram tudo e esqueceram também o castelão feiticeiro que tudo sabia. Numa noite de luar montaram ambos o cavalo branco do cavaleiro e cavalgaram a toda a brida sobre os rochedos fronteiros ao mar.
No paço, o feiticeiro, louco de ciúmes e de raiva incontrolada, transformou a noite numa concentração de todas as tempestades e malefícios do mundo.
Sob as patas do cavalo abriram-se os rochedos negros de par em par, como se ali fosse uma das entradas do inferno. Cavalo e cavaleiros despenharam-se no abismo redemoinhante e foram engolidos pela boca do mar.



Assim que os dois amantes solitários desapareceram no redemoinhar infernal, acalmou a tempestade e o mar voltou a ficar manso como se nunca tivesse estado diferente. O buraco nos rochedos, porém, nunca mais fechou, como se a ferida da natureza quisesse perpetuar esta história. E talvez assim fosse, já que muitas vezes volta o vento e retoma a fúria do mar, tal como no dia em que morreram a cativa e o guardião da torre.
Por isto mesmo, e porque o povo da região nunca esqueceu a história, se chama àquele local de mistério Boca do Inferno.

Textos e Fotos tirados da Net

António Inglês