quarta-feira, 30 de abril de 2008

A LENDA DA COVA ENCANTADA OU DA CASA DA MOURA ZAIDA

*

Na serra de Sintra, perto do Castelo dos Mouros, existe uma rocha com um corte que a tradição diz marcar a entrada para uma cova que tem comunicação com o castelo.




É conhecida pela Cova da Moura ou a Cova Encantada e está ligada a uma lenda do tempo em que os Mouros dominavam Sintra e os cristãos nela faziam frequentes incursões. Num dos combates, foi feito prisioneiro um cavaleiro nobre por quem Zaida, a filha do alcaide, se apaixonou.




Dia após dia, Zaida visitava o nobre cavaleiro até que chegou a hora da sua libertação, através do pagamento de um resgate. O cavaleiro apaixonado pediu a Zaida para fugir com ele mas Zaida recusou, pedindo-lhe para nunca mais a esquecer.




O nobre cavaleiro voltou para a sua família mas uma grande tristeza ensombrava os seus dias. Tentou esquecer Zaida nos campos de batalha, mas após muitas noites de insónia decidiu atacar de novo o castelo de Sintra. Foi durante esse combate que os dois enamorados se abraçaram, mas a sorte ou o azar quis que o nobre cavaleiro tombasse ferido.




Zaida arrastou o seu amado, através de uma passagem secreta, até uma sala escondida nas grutas e, enquanto enchia uma bilha de água numa nascente próxima para levar ao seu amado, foi atingida por uma seta e caiu ferida.




O cavaleiro cristão juntou-se ao corpo da sua amada e os dois sangues misturaram-se, sendo ambos encontrados mais tarde já sem vida.




Desde então, em certas noites de luar, aparece junto à cova uma formosa donzela vestida de branco com uma bilha que enche de água para depois desaparecer na noite após um doloroso gemido...




Texto e Fotos da Net

António Inglês

UM NOVO DESAFIO!

*


A Carminda Pinho do (http://forum-cidadania.blogspot.com/) deixou-me lá no seu cantinho, um novo desafio. Há uns tempos que não recebia nenhum e não sei se estarei ainda treinado para o fazer mas cá vai, a ver vamos do que serei capaz.


DESAFIO:

Qualidades - honestidade, lealdade, sensibilidade...

Defeitos – horários é mentira, teimosia, guloso...

Gostos - - de rir, brincar, chocolate, mar, sol e do Benfica!...

Não passarei sem ir viver para o Minho...

Detestas - a crueldade, hipocrisia, favas, wisky...

Pessoa – Eusébio.

Família grande, a minha.

Homem - o meu pai, meus filhos...

Mulher - a minha mãe, as minhas filhas...

Sorriso - dos meus filhos.

Perfume - JOVAN

Carro – o meu que não troco por nada deste mundo, mesmo dando-me tanta despesa.

Paixão - cegueira...

Amor – olhando à volta, tenho bastantes...

Olhos – dizem tudo...

Sal – depende...na comida sim qb ... na vida sim, muito...dá sabor...

Chuva – junto à lareira...

Mar - confidente...

Livro – em especial, neste momento, nenhum... falta-me o tempo...

Filmes – já gostei mais, agora prefira as pantufas...

Músicas – toda aquela que mexe comigo, desde jazz até ao folclore...

Dinheiro – onde??????

Silêncio – bem tocado, adoro...

Solidão – faz falta uma vez por outra, mas assusta-me...

Flor – a minha mulher...

Sinceridade – na ponta da língua, com todos os inconvenientes...

Sonhos – muitos.... uns alegram-me.... outros assustam-me...

Cidade – Viana do Castelo.

País - Portugal.

Não viver sem – a família...

Nunca deixar de – ter o coração ao pé da boca...

E este desafio vai direitinho para estes meus amigos/as:

- http://escritoaquente.blogspot.com/ Escrito a Quente

- http://simecqcultura.blogspot.com/ Simecq

- http://maufeitiodalisa.blogspot.com/ Lisa’s Mau Feitio

- http://ocheirodailha.blogspot.com/ O Cheiro da Ilha

- http://6feira.blogspot.com/ Sexta-Feira

e para todos aqueles que o queiram fazer aqui nos comentários, ou no seu blog, desafiados estão também.

Tenham uma boa semana!

António Inglês


terça-feira, 29 de abril de 2008

A LENDA DA CAPARICA


*

Tudo começou há longos anos, quando uma menina contemplava o mar, numa tarde calma e branca de calor.




Ela não sabia que estava a ser observada por um velho, que se sentia intrigado com aquela criança, embrulhada numa capa. Foi falar com a menina e ela explicou-lhe que vivia só, que se chamava Miúda e que sempre tivera aquela capa.




O velho estava admirado. Como era possível que uma menina tão pequena andasse pelo mundo sem eira nem beira? Propôs-lhe viverem juntos, pois ele também estava só e tinha uma casinha no alto do monte, junto ao mar.




Assim foi. Ficaram juntos, ele envelhecendo e ela a crescer. Viviam com o que havia: o sol, o mar, os mariscos das rochas. Um dia, o velho achou que era tempo de se ir embora. Pediu à miúda a sua capa, porque tinha frio. Ela pôs-lha sobre o corpo, deu-lhe a mão e deixou-se dormir juntamente com ele. Quando acordou, ele já estava morto e a Miúda enterrou-o numa sepultura perto da igrejinha da Senhora do Monte. Deixou de chamar-se Miúda e escolheu para si o nome de Mulher.




Continuou a viver naquela casa, solitária. A sua vida era a mesma de sempre; as suas vestes, a velha capa. A Mulher viveu ali tantos anos, que lhe perdeu a conta.

Certo dia, reparou que a gente da zona começava a olhá-la estranhamente, como se tivessem medo dela. Não atinava porquê, já que ela nada mais era do que a Mulher velha e solitária, a Mulher da capa que, afinal, todos conheciam desde sempre. E agora ouvia dizer baixinho, quando descia à aldeia: "Bruxa, bruxa!".




Entristeceu, porque desconhecia o motivo por que lhe chamavam tal nome e porque não sabia que dentro de si saía uma luz desconhecida, quando no alto do monte erguia os braços ao sol ou à lua, na sua saudação diária.




As pessoas foram contar ao Rei e este mandou-a chamar, dizendo-lhe que ela era poderosa e que fazia ouro e malefícios. Ela ficou muito admirada e replicou que era tão pobre que só tinha aquela capa desde que nascera. O Rei olhou a Mulher e viu que era verdade. Mandou-a embora, com vergonha.




Um dia, quando as gentes da aldeia souberam da morte da Mulher pelo dobre dos sinos da Senhora do Monte, acorreram à velha morada cheias de curiosidade. Sobre o seu corpo estava a velha capa e sobre esta encontrava-se um papel destinado ao Rei. Nele estava escrito: "Meu Senhor: deixo-vos esta capa que tenho desde que nasci. Encontrei nela todo o ouro que diziam que eu tinha: foi o meu velho companheiro que, antes de se ir embora, aí o meteu. Eu nunca o tinha visto e agora que vi, não preciso dele. Utilizai-o nesta terra para que todos tirem dele o que mais desejarem. Afinal a minha capa era uma capa rica. Que o meu Deus vos abençoe."




Foi assim que apareceu o nome de Caparica, em memória de uma Mulher que ali surgiu um dia, quando era Míuda, vinda dos caminhos da Terra, coberta por uma capa já velha.

Texto e Fotos da Net

António Inglês

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A CAPELA DE ANTEPORTA FOI RESTAURADA!


*
João Luís Fonseca Inglês, Otília Inglês e população local


Padre Diogo celebrando a Missa

Leitura na Missa por uma habitante da terra



No passado dia 27 de Abril de 2008, ANTEPORTA, uma pequena aldeia Ribatejana, do Distrito de Santarém, Concelho de Rio Maior, um dos 39 lugares da Freguesia de Rio Maior, escreveu mais um dia da sua história comunitária com a inauguração das obras de restauração da sua capela.

Lugar outrora escondido, com acesso às localidades vizinhas por caminhos de terra batida e mal conservada, apresenta hoje um aspecto bem diferente e é local de passagem, com tráfego já apreciável diga-se, para quem transita para Arrouquelas, Manique do Intendente, Assentiz ou até mesmo Alcoentre.


Celebrando a Missa


Sr. Padre Diogo, pároco do Concelho

Frontaria da Capela de Anteporta restaurada


A reduzida população deste lugar, viu crescer a pulso, a maioria dos seus melhoramentos, fruto do empenho e conhecimentos junto do poder central, de alguns dos seus naturais, aproximando-a assim da civilização, da qual se encontrava separada pelo isolamento de um Portugal menor.

Com a luz eléctrica e água canalizada, alcatroamento de ruas e caminhos e a construção da sua capela, Anteporta encontrou-se consigo mesma, e abriu para o mundo com a mesma dimensão de antigamente, mas de uma forma mais enérgica e mais actualizada.

Nos dias de hoje, as crianças já vão à escola de transportes públicos, não há quase ninguém que não permita que o mundo lhe entre em casa via televisão, e os locais apropriados são poucos para o estacionamento dos carros dos seus habitantes.

Dr. Feliciano Júnior e Carlos Manuel, director e chefe de redacção do Região de Rio Maior


Dr. Silvino Sequeira e Luís Agostinho


Dr. Silvino Sequeira, Dr. Carlos Nazaré e Sr. João Inglês (de costas)


O que foi antigamente a Casa do Povo, inaugurada há muitos anos pelo então Ministro das Corporações, Dr. Gonçalves Proença, é hoje a Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Anteporta. É ali que a população se junta sempre que a ocasião se proporciona.

Mercê de um punhado de jovens, alguns com idade já avançada mas não menos jovens, foi possível recuperar umas instalações que teimariam por cair de abandono.

A Capela, julgo que erigida a Stº António, entradita nos anos, via o seu interior degradar-se ano após ano. A Igreja, não querendo ou não podendo, deixou que a mesma se fosse “acabando”, e o futuro afigurava-se cinzento.


Rua Joaquim Correia Inglês, em Anteporta


José Paulo Bernardes e populares


Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Anteporta, antiga Casa do Povo


Mais uma vez, a população tomou nas suas mãos a iniciativa de apelar junto dos órgãos do poder local, nomeadamente Câmara Municipal de Rio Maior, e também do Governo Central, missão espinhosa e complicada. Meses de insistência, caminhos desbravados e calcorreados em direcção a quem de direito, acabaram por dar os seus frutos, e de novo se pode afirmar, que o Homem quis e a obra Renasceu.

Está a Capela de Anteporta recuperada, está a população de Anteporta de parabéns, está a terra de novo a caminho do futuro, que o futuro das nossas pequenas populações faz-se destas pequenas conquistas.


A caminho do repasto


Aspecto da população no interior da Associação Cultural, Recreativa e Desportiva de Anteporta


Dª Margarida Inglês, mulher de João Inglês


Centena e meia de populares, naturais e seus descendentes, assistiram a este acto solene, que teve Missa às 15 horas, dada pelo Padre Diogo, e foi seguído de um lanche primorosa e abundantemente preparado pelas senhoras da localidade nas instalações da ACR e D de Anteporta. A confraternização prolongou-se pela tarde e noite dentro, sendo fácil ver estampado no rosto da população a satisfação pelo acontecimento.

A estas cerimónias estiveram presentes o actual Presidente da Câmara Municipal de Rio Maior, Dr. Carlos Nazaré, o anterior Presidente Dr. Silvino Sequeira, a Presidente da Junta de Freguesia de Rio Maior, Isaura Morais, o Dr. Feliciano Júnior, Director do Jornal Região de Rio Maior, e distintos membros da Comissão Obreira que em tão boa hora deitou mãos à obra, não podendo deixar passar em claro o Sr. João Inglês, grande impulsionador desta comissão.


Mais um aspecto do lanche


João Luís Correia Inglês e a filha de José Bernardes, Drª Olívia Bernardes


João Luís Correia Inglês e Dr. Silvino Sequeira ex-presidente da Câmara Municipal de Rio Maior


Numa época em que invariavelmente se diz mal dos nossos autarcas, ficam os parabéns à Câmara Municipal de Rio Maior, pela resposta positiva que deu a esta iniciativa, ao Estado que comparticipou com a maior fatia financeira e que permitiu que a obra acontecesse, e à Comissão Obreira.

Aos dois Presidentes da câmara que estiveram presentes, o actual e o anterior, fica uma palavra de gratidão pelo empenho e colaboração que qualquer deles deu e pela forma como respondem presente aos legítimos anseios das populações do seu Concelho.


Isaura Morais, Presidente da Junta de Freguesia de Rio Maior


O evento misturou juventude com veterania num convívio salutar de gerações
Luís Agostinho e Inês Costa



Dr. Silvino Sequeira e mulher, Drª Maria Elsa Sequeira

Não posso acabar esta pequena e modesta crónica, sem deixar algumas palavras do muito orgulho que sinto por ver envolvidos no progresso desta pequena terra, os nomes de meu pai Joaquim Correia Inglês, pelo muito que fez em prol dos seus conterrâneos, e na acção decisiva que teve na construção desta Capela, e o de meu tio, João Luís Correia Inglês porque dele vieram as forças e o querer para que o dia de 27 de Abril fosse uma realidade, seguindo as pisadas de seu irmão, reforçando os laços afectivos que Anteporta tem com a nossa família, mas dando um exemplo de humildade e vontade de trabalhar em prol da comunidade e do seu semelhante. Bem hajam os dois, e que Deus conserve por muitos e bons anos o João Luis, que está bem vivo e tem de continuar a mostrar o seu empenho na sua terra natal, bem como a toda a sua família onde me incluo. Permita a força divina que nós os seus descendentes possamos continuar a saber merecer o nome que eles tão bem souberam e sabem honrar.


Dançou-se pela tarde fora


Era visível no rosto da população, a satisfação pelo evento de 27 de Abril de 2008



José Paulo Bernardes e sua mulher, Dª Maria Violete Bernardes dançando e mostrando aos jovens como se faz.

António Inglês

domingo, 27 de abril de 2008

LENDAS DE PORTUGAL

*

Meus amigos, acabei de chegar de mais uma confraternização e amanhã, domingo parto para outra.

O tempo não tem facilitado em nada a minha vida blogosférica e como as muitas actividades em que me encontro envolvido se aliaram a estes convívios de fim de semana, a situação piorou drasticamente.

Curiosamente, tinha entrado numa fase em que nada me faria prever tanta azáfama nem tanta solicitação social, politica e profissional.

Conquistei amizades e hábitos dos quais não gostaria de me afastar, mas nem sempre conseguimos controlar os acontecimentos.

Jamais quereria que os meus amigos da blogosfera me considerassem um ingrato ou mais um dos tantos que por aqui passam esporadicamente, e que ao fim de um certo tempo acabam por se afastar sem mais nem menos.

Não o faria, mas também não quero continuar numa situação de membro ausente que apenas gosta de ver os amigos por sua casa, e acaba por não lhes retribuir a amizade e a dedicação que têm demonstrado para comigo.

Desta forma, e por uma questão de coerência, sou obrigado a comunicar a todos, que não obstante a muita amizade que lhes dedico, a muita consideração que todos me merecem, e também o muito carinho que todos me oferecem, me vejo obrigado a repensar toda a minha participação neste mundo tão “nosso”, tão importante na minha vida mas que me tem trazido sob enorme pressão. É que o facto de não ter tempo, não obsta a que não esteja sempre que posso, a deitar o olho de soslaio para aqui, verificando como todos me tratam, me visitam, sem que eu lhes possa corresponder da mesma forma.

É injusto, é incorrecto e massacrante, fazendo com que ande em constante estado de ansiedade, porque não quero perder os amigos, porque não posso vir aqui o que gostaria.

Vou pois entrar numa fase bastante calma, e como penso ter encontrado a forma de conciliar tudo, inicio hoje um ciclo de postagens sobre “Lendas de Portugal” que me permitirá espaçar mais o intervalo sobre elas.

Sei que talvez leve algum tempo, mas este ritmo vai ter de abrandar e permitir-me-á mais e melhor atenção a todos vós.

Deixo a todos os meus agradecimentos por tudo o que me têm dado, prometendo que a pouco e pouco irei respondendo aos vossos comentários e irei passando por casa de cada um, mostrando-vos que continuo convosco no coração. Espero por isso a vossa compreensão.

Um abraço bem fraterno a todos vós meus amigos.

António Inglês



A LENDA DA BOCA DO INFERNO

Num tempo esquecido existia por ali um enorme castelo, paço habitado por um homem de aspecto feroz e satânico que, nas horas da sua actividade, cultivavam a arte da feitiçaria.
Um dia, esse homem decidiu casar-se, e para escolher a mais bela mulher das redondezas consultou a sua lâmina de cristal de rocha para identificar o local e a casa onde deveria mandar buscá-la. Quando viu a mulher que os seus cavaleiros trouxeram, ficou estupefacto.
Era estupefactamente mais bela do que imaginara ao vê-la sugerida na lâmina das adivinhações. Diz-se que lhe deu uma fúria de ciúmes e tratou de a esconder da cobiça alheia para preservar o seu amor, mas penso que a escondeu do mundo para se proteger a si mesmo, que não a soubera cativar.



Encarcerou a mulher numa torre inexpugnável e solitária, e guardou-a como se guardam aquelas coisas que ao mesmo tempo se amam e detestam, ou temem. Escolheu-lhe para guardião o mais fiel dos seus cavaleiros, exactamente o homem que nunca a vira, para que mais cegamente a guardasse.
Frente ao mar o tempo passava, cronometrados os dias pelas marés, as semanas pela sucessão dos dias e das noites, os meses pela lua. Tão só se sentia o guardião como a cativa do seu senhor. O horizonte de ambos era o mar eternamente sempre outro e o mesmo. A música que a ambos chegava era a dos seus pensamentos, a do marulhar revolto ou terno das ondas, o sibilo do vento por entre as rochas. Assim passava o tempo e não passava, porque o tempo para ser tempo tem de se referenciar à vida, e ali não se passava nada que fosse vivo.



Até que, um dia, o ócio provocou no cavaleiro uma curiosidade inadiável. Insensivelmente, deu por si a pensar que mulher era aquela que merecia tão triste reclusão. Pouco depois, encontrou-se a desejar abrir a porta da torre para ver ao menos o rosto da mulher que guardava. Por fim, achou-se frente à porta de chave na mão.
Meteu-a na fechadura e rodou. A porta rangeu de ferrugem quando o cavaleiro se apoiou nela lentamente. E enquanto subia a escada de caracol que levava à câmara da cativa, talvez mil pensamentos se lhe entrecruzassem silenciosamente no cérebro: o que iria encontrar? Seria bonita ou horrorosa? Se calhar era aleijada! Muda ou doente! E se estivesse morta? Não, na realidade enquanto subia as escadas não pensou nada. Estava apenas expectante e quem vive expectativas não se pergunta nada, ainda que na sua espera hajam inscritas todas as interrogações do mundo.



Frente à porta da câmara da sua cativa, o cavaleiro parou para acalmar o coração e tomar coragem. Quando conseguiu dominar a tremura das pernas e das mãos, empurrou a porta. O sol, que entrava por uma das ogivas da torre, bateu-lhe nos olhos e cegou-o por momentos. Pouco a pouco, retomou a visão e a névoa foi-se dissipando até o deixar frente à mulher que a sua expectativa não pudera imaginar.
Semivoltada, a cativa da torre, tão espantada quanto o guardião, olhou-o interrogativa, esperando a palavra que não veio, acabando por perguntar:
-Quem és tu, cavaleiro? Porque vens perturbar-me a solidão?
E o homem, quando achou de novo a sua voz, respondeu finalmente:
-Sou o vosso guardião, senhora! –e baixinho disse para si mesmo: «Agora o compreendo a ele…»
-O meu guardião! Guardião de quê? Desta solidão sem nome e sem razão? Vê, vê como se consomem os meus dias, sem prazer, sem ilusão!... ao menos tu…
-Eu , senhora? Eu estou ali em baixo tão só como vós, e a guardar o quê, para quê?! Mas a partir de hoje talvez possamos partilhar as nossas horas perdidas neste ermo. Tudo o que quiserdes, senhora, ordenai! Levar-vos-ei onde pedirdes!...


Diz a lenda que assim nasceu um louco amor assente sobre a cumplicidade dos segredos e das solidões. Os dias nunca mais foram lentos, o tempo fugiu à desfilada e instalou-se eterno e instante.
Um dia olharam-se, cativa e guardião, e perguntaram-se o que faziam ali. Porque estou eu prisioneira? De que sou eu guardião? Acharam aquela torre uma masmorra absurda. Que guarda um guardião sem chave? Como se sentir prisioneiro de uma prisão aberta?
Partiram.
Esqueceram tudo e esqueceram também o castelão feiticeiro que tudo sabia. Numa noite de luar montaram ambos o cavalo branco do cavaleiro e cavalgaram a toda a brida sobre os rochedos fronteiros ao mar.
No paço, o feiticeiro, louco de ciúmes e de raiva incontrolada, transformou a noite numa concentração de todas as tempestades e malefícios do mundo.
Sob as patas do cavalo abriram-se os rochedos negros de par em par, como se ali fosse uma das entradas do inferno. Cavalo e cavaleiros despenharam-se no abismo redemoinhante e foram engolidos pela boca do mar.



Assim que os dois amantes solitários desapareceram no redemoinhar infernal, acalmou a tempestade e o mar voltou a ficar manso como se nunca tivesse estado diferente. O buraco nos rochedos, porém, nunca mais fechou, como se a ferida da natureza quisesse perpetuar esta história. E talvez assim fosse, já que muitas vezes volta o vento e retoma a fúria do mar, tal como no dia em que morreram a cativa e o guardião da torre.
Por isto mesmo, e porque o povo da região nunca esqueceu a história, se chama àquele local de mistério Boca do Inferno.

Textos e Fotos tirados da Net

António Inglês