
FESTAS EM HONRA DE SÃO MARTINHO DO PORTO
Estão a decorrer em São Martinho do Porto, as Festas em honra do Santo que deu nome à terra. São três dias de pequenos festejos que a vida não está para muita animação.
Mesmo assim, por entre bailes, castanhas, água-pé, fados, missa e procissão, a população lá vai respondendo conforme pode.
Ontem foi dia de bailareco, bem à moda da aldeia, com uma razoável participação dançarina, e pela noite dentro uma sessão de fados para animar a malta.
Correu bem a tarde e noite de ontem, com o Presidente da Junta a participar nas cantorias, alegrando o povo, que é disto que ele gosta, ele e o povo. Por alguma razão já vai no terceiro ou quarto mandato, nem me lembro, o que para o caso pouco importa.
Estes festejos, aos quais me sinto particularmente ligado, perderam o seu cariz inicial e aparecem aos nossos olhos como uns festejos menores, pobres e sem grande projecção. São mais uns para cumprir calendário e tradição, que nem é muita. Louve-se a iniciativa da Junta de Freguesia e do novo pároco da Vila, que fez questão de ver e sentir ao vivo e a cores, o pulsar do seu rebanho.
A propósito de pároco, tive ontem a oportunidade de o conhecer pessoalmente, pois confesso ainda não pus os pés na Igreja desde a sua chegada. Jovem e participativo, pareceu-me boa pessoa e empenhado na unificação do povo. Bons indícios, particularmente porque a sua atitude de se manter até ao fim da sessão de fados me deixou positivamente agradado. Promete este Padre Joaquim Gonçalves.
Mas, se como disse os festejos são pobres, ontem ficaram enriquecidos porque se prestou homenagem, de forma expontanea, a um casal de naturais de São Martinho do Porto, mais propriamente do Bom Jesus, Serra dos Mangues, um dos Lugares da Freguesia, onde sempre viveram.
O Ti Laré e a Tia Agostinha, como são conhecidos, são figuras incontronaveis e de uma simpatia marcante. No meu caso particular, grandes e queridos amigos e vizinhos pois tive uma casa quase encostadinha à deles naquela Serra, e ainda hoje guardo gratas recordações de muitas tardes bem passadas, ouvindo histórias desta terra, das suas gentes, dos seus usos e costumes e do seu folclore, que os dois fizeram parte do que eles chamam Rancho Folclórico, mas que eu considero mais “marcha popular” dado o trajar que usavam ser todo igual. Este facto nem sequer é relevante, porque o que é verdade é que o povo se juntava e cantava e dançava, mesmo vivendo com dificuldades.
Quantas e quantas tardes o Ti Laré me trauteou dezenas de “modas” do seu tempo de menino e moço, à mistura com um ou outro fadito. De vez em quando a Tia Agostinha lá o emendava, e ele concordando umas vezes outras nem tanto, lá emendava e voltava a cantar do mesmo jeito.
Quero-vos dizer, que o Ti Laré tem 93 anos de idade, e a Tia Agostinha 89.
Pese embora alguns problemas de saúde, que o acumular dos anos vem trazendo, à mistura com um acidente que pôs o Ti Laré meio cá meio lá, pois foi atropelado, e do qual recuperou, lá vão os dois fazendo companhia um ao outro, tendo agora também a viver consigo o José da Costa, seu único e orgulhoso filho. Na casa ao lado da que moram, netos e bisnetos vão sendo testemunhas de um exemplo de vida que irá perdurar para lá da existência destes dois seres maravilhosos da nossa comunidade.
Pois é meus amigos,dizia-vos há pouco que as festas de ontem ficaram enriquecidas com a homenagem que todos de pé prestámos a este casal, e agora digo-vos qual o motivo que nos levou a cantar os parabéns aos dois. É que ontem faziam 68 anos de casados, 68 anos de casados repito, uma vida cheia de força e de coragem.
Foi bonito de ver e de sentir. O abraço sentido que o filho José Costa me deu, com a lágrima ao canto do olho, embrulhou-me de novo as palavras em soluços, sinal de que os meus anitos também já vão fazendo mossa.
Deixo nestas colunas os meus PARABÉNS aos noivos, aqueles eternos noivos que ainda hoje com a idade que têm, pela manhã se entretêm a tratar das suas terras de enxada na mão, cavando-a ou tratando do milho. A terra que os há-de receber só terá de os tratar bem, pois ao longo destes anos o Ti Laré e a Tia Agostinha não fizeram outra coisa senão tratar bem dela e de todos os que os rodearam.
Bem hajam meus amigos, pelo exemplo de vida, verticalidade e humildade, que nos têm transmitido nestes anos todos e que Deus nos dê a graça de podermos ir contando convosco entre nós, que essa graça é vossa também, mas somos nós que temos esse privilégio.
Um grande abraço deste vosso amigo.
José Gonçalves