O BOSS
Durante os últimos anos, sempre que vou a Moledo, fico em casa de minha prima. Não é bem uma prima, é um pouco mais que isso. É como uma irmã. Ela e o marido. São dois “amigos do peito” que mesmo longe, estão presentes nas nossas vidas.
A casa deles é uma espécie de... refúgio para todos nós, tal a sintonia que sentimos sempre que nos reunimos à noite em redor da televisão. Sim porque hoje em dia, as reuniões familiares são em torno da televisão, sem diálogo, sem convívio, apenas televisão, já longe dos tempos em que era à volta da lareira que todos se juntavam. Outros tempos.
Ali em casa porém, mesmo não privilegiando a lareira, e dando ao sector feminino a prioridade para as telenovelas, vamos encontrando formas de conversar e conviver entre as cenas de cada capítulo.
É acolhedora a casa dos meus primos. É grande, o que nem sempre é sinónimo de acolhedor. Cá fora o jardim mistura-se com inúmeras árvores de fruto, religiosamente tratadas pelo pai da minha prima e beneficiando do óptimo clima que os favorece.
Ao canto do jardim... bem ao canto está o meu senão. Tudo na vida tem um senão. Um enorme e forte canil, protege um corpulento Rottweiler preto, de postura arrogante e ameaçadora.
Ao longo destes anos todos e desde que aquela personagem foi para lá viver, as minhas estadias têm sido sempre super controladas evitando encontros pouco amigáveis entre nós. O respeito tem sido de parte a parte e acho que o Boss, de seu nome, aprendeu depressa que não me tinha caído no goto. Os olhares e as expressões que me dedicava
Pois da última vez que lá estive quinze maravilhosos dias, o meu “amigo” Boss, modificou a sua atitude para comigo. Tornou-se acessível e menos agressivo, tendo mesmo chegado perto de mim, como que pedindo que o afagasse ou lhe dirigisse uma palavra de amizade ou um pedido de tréguas. O olhar tornou-se terrivelmente meigo e pensei com os meus botões que tinha ganho esta guerra fria entre nós. Não foram poucas as vezes que durante esses dias me vi a fazer festas no Boss, como se isso fosse afinal o que sempre tínhamos feito, desde que nos conhecemos.
Confesso que mesmo à distância, tinha uma certa afeição àquele corpulento exemplar canino, que fazia já parte da vida familiar dos meus primos, não obstante lhes ter chamado várias vezes a atenção para o facto de se constar que aquela raça de cães não era muito de fiar.
Foi neste clima de reconciliação entre nós que regressei a casa, elogiando para quem me queria ouvir, os dotes meigos do Boss e o olhar ternamente carregado e arrependido que me deitou durante a nossa estadia. E não pensem que esta reconciliação foi apenas entre mim e o Boss, não senhor. Também a minha mulher, salva em tempos por uma intervenção rápida do meu primo, fez as pazes com o Boss.
Anteontem meus amigos, perto das oito horas da noite, o telefone tocou. Era o meu primo. Pedia-me para conversar com a mulher e lhe dar algum alento. O Boss falecera, vitima de doença incurável, e ela precisava de mais algum conforto.
A notícia caiu como uma bomba. Para lá de toda a atribulada relação, tínhamos ganho uma afeição ao Boss, baseada no respeito mas também no hábito de o ver a guardar a casa dos meus primos. Quase sempre à solta pelo jardim.
Julgo mesmo que só ia para o canil quando nós lá estávamos. Talvez fosse essa a mágoa do Boss e a pouca vontade que tinha de nos ver por lá.
Após a notícia, estive seguramente uns bons dez a quinze minutos em silêncio. Não consegui articular palavra.
É que me lembrei da nossa reconciliação, da ternura e do afecto que o Boss nos quis oferecer, quem sabe adivinhando seria a última vez. O olhar meigo e terno que nos lançava, diz-me agora o coração, era tão só uma despedida, e os amigos não se despedem de costas voltadas.
Adeus Boss, parte em paz. Quem fica em sobressalto sou eu por não te ter entendido mais cedo.
Leva contigo o osso da amizade que afinal nos unia, porque quem sente assim só pode ser um amigo.
José Gonçalves












